UNIVERSIDADES NEGRAS

BRASIL/ÁFRICA - I
José Luiz Pereira da Costa

Universidade Howard, Washington, século 18.
Albert Adu Boahen, professor ganense de História Africana, descrevendo impérios antigos de seu continente, no livro Topics in West African History, se refere ao Império de Songhai, que existiu em torno ao século 9, de nossa época, dizendo haver sido "memorável o estímulo dado à educação superior. Sábios e professores, atraídos pela paz e a ordem no Império, bem como pela generosidade de Muhammed Askia, foram para Tombuctu, que se tornou, durante o seu reinado, não apenas uma metrópole comercial, mas também educacional. Havia ali cerca de 150 escolas do Corão, e a educação universitária era ministrada na Mesquita de Sankore. A Universidade constituída, como suas contemporâneas de Paris e Oxford, de eminentes mestres e seus discípulos, atraiu um largo contingente de estudantes, muitos vindos de longe, que formavam, mais adiante, expressivo corpo de juristas, historiadores e teólogos.
Em meio a eles estavam dois renomados historiadores, Mohamoud Kati e Adberahman As-Sadi, cujos livros de história, Tarikh a-Fattash e Tarikh as-Sudan, ainda existem, e constituem-se em importante suporte na reconstituição da história Songhai".
Universidade Medieval de Sankoré,Mali
Na região que hoje forma os estados do norte da Nigéria houve, ao longo dos séculos 17 e 18, os impérios Hauçá e Fulani Jihad.Abrigaram, ambos, não apenas a mais importante personalidade muçulmana da África,um Maomé do sul do Saara, chamado Osman Don Fodio,
como o legado da cultura islâmica, consubstanciada no povo fulani, que trabalhava na Hauçalândia como funcionários públicos, diplomatas e tutores. A experiência pessoal de muitos deles, somada aos conhecimentos acumulados por gerações, levaram-nos a fundar escolas próprias, em que ensinavam as ciências tradicionais islâmicas, além de Geografia, História, Lógica, Teologia, Leis, Gramática, Retórica, Prosódia, Astronomia e Astrologia. A costa oeste da África, em período mais próximo de nossos dias, no crepúsculo do nefando tráfico de escravos, recebia às sociedades missionárias européias. Instalavam-se, num primeiro momento, para levar a palavra de Cristo e penitenciarem-se dos danos que seus compatriotas haviam causado ao longo de séculos. Era 1827,cinco anos após nossa Independência, quando fizeram surgir,
em novos tempos, a primeiraescola de nível superior, nos moldes europeus. College, chamavam-na em inglês, e a batizaram de Fourah Bay College, ainda hoje funcionando, em Serra Leoa. Os meninos destacados, filhos dos novos ricos à ocidental, plantadores de algodoeiros, dendezeiros, seringais, cacaueiros e outros bens agrícolas, das colônias inglesas da costa oeste, eram enviados para lá, onde cursavam às diversas faculdades disponíveis.Dez séculos depois da Mesquita de Sankore; apenas 10 anos após Fourah Bay — porém, 28 anos antes da Abolição nos Estados Unidos, a semente que migrara através do Atlântico, desabrochava na terra fértil da Pensilvânia, com o estabelecimento da Cheyney University: uma universidade para os negros.

Fourah Bay College

A escola pioneira, que surgia no Norte, como uma estrela a emular o sonho distante dos negros, país afora, em verdade constituiu-se numa força irresistível, capaz de gerar um fantástico efeito multiplicador. Usando como elemento balizador a promulgação da 13ª Emenda, de 1865 — com a qual Lincoln podia ver concluída "com satisfação sua abolição, iniciada com as proclamações que fizera ao tempo da guerra", como define John Hope Franklin no seu livro From Slavery to Freedom —, constata-se que até ai nove universidades negras já funcionavam naquele país. Em 1888, ano da Abolição no Brasil, o número havia crescido para fantásticos 45 exemplares. Pelo norte e sul dos Estados Unidos espalhavam-se colleges e universidades em tudo semelhantes às suas congêneres brancas, como Harvard, Yale, Missouri, Arkansas etc. Enquanto colônia de Portugal, não contamos sequer com uma universidade. Até a nossa Independência um número medíocre de 3 mil jovens haviam recebido instrução superior, especialmente em Coimbra. Quando da proclamação da república, cinco faculdades operavam no País. Em 1920, ao ser criada a Universidade do Rio de Janeiro, 70 era o número de universidades negras norte-americanas. Este admirável universo de ensino superior, que chegaria a um patamar de 117 colleges e universidades, fez surgir, como necessidade corporativa, uma entidade com a sigla NAFEO, significando Associação Nacional para Igual Oportunidade no Ensino Superior. Trata-se de um poderoso elemento de loby, capaz de, ao longo dos anos, dobrar governos estaduais e o federal, nas lutas por eqüidade de tratamento com suas congêneres brancas. Ao lado de entidades como a NAACP — sigla que, irônicamente, carrega a estigmatizada e politicamente incorreta expressão, gente de cor, dos tempos de sua fundação, em 1909 —, a NAFEO lutou pela igualdade racial. Venceu e, com o resultado da vitória, viu as portas de seus colleges e universidades abertas para os brancos. Como ocorrera nas similares brancas, tomadas que foram por milhares de até então segregados negros. A NAFEO, por seu presidente, o professor Samuel Meyrs, esteve em Porto Alegre. Veio, com outros quatro reitores, como convidados do governador Alceu Collares, numa iniciativa do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra. Esta entidade, mais do que um atalaia, alerta para denunciar comportamentos distorcidos de nossa sociedade, fez gerar um acordo mediante o qual estudantes gaúchos terão abertas as portas dessas 117 universidades, assim como jovens americanos poderão sentar-se nos bancos de nossas escolas superiores. Este breve ensaio tem um fecho ítalo-gaúcho, de Mário Maestri. Em seu livro O Escravo Gaúcho — Resistência e Trabalho diz: — "Ao contrário do continente bárbaro e misterioso, que por décadas a literatura européia colonial sugeriu, hoje podemos entrever o rico processo civilizatório que a África Negra conhecia e o passo histórico decisivo que se preparava para dar no momento em que os primeiros comerciantes europeus aportaram em suas praias oferecendo preciosas mercadorias em troca de diversos produtos e, sobretudo, de homens para serem escravizados no além-mar. O tráfico negreiro europeu lançou uma estocada mortal no mais que milenar processo histórico ascendente negro-africano". Sim, as mazelas da África de nossos dias corroboram a assertiva acima. Da mesma forma o faz a constatação de realizações da diáspora africana que se assentou nos Estados Unidos, geradora de, dentre nós brasileiros, fenômeno pouco conhecido, como o de produzir 117 estabelecimentos de ensino superior. A estocada foi letal, sem dúvida. Mas, e por enquanto, deu-se noutro plano o renascimento.
Zero Hora, 19 de junho de 1993.

Relação das Universidades historicamente negras, não constante da matéria de Zero Hora:

1837, Cheyney University of Pennsylvania; 1854, Lincoln University-Pennsylvania; 1856, Wilberforce University (Ohio); 1857, Harris-Stowe State College (Missouri); 1862, LeMoyne-Owen College (Tennessee); 1865, Virginia Union University; 1865,Clark Atlanta University; 1865, Bowie State University (Maryland); 1865, Shaw University (Carolina do Norte); 1866, Edward Waters College (Florida); 1866, Lincoln University (Missouri); 1867, Barber-Scotia College (Carolina do Norte); 1867, Talladega, College (Alabama); 1867, Fisk University (Tennessee); 1867, Saint Augustine's College (Carolina do Norte); 1867, Morehouse College (Georgia); 1867, Howard University (Washington); 1867, Chicago State University; 1868, Hampton University, Virginia; 1869, Tougaloo College (Mississippi); 1869, Claflin College; 1870, Allen University (Carolina do Sul); 1871, Alcorn State University (Lorman Mississipi); 1873, Bennett College (Carolina do Norte); 1873, University of Arkansas; 1874, Alabama State University; 1875, Alabama A & M University; 1875, Knoxville College (Tennessee); 1876, Prairie View A&M University; 1876, Stillman College (Alabama); 1877, Jackson State University (Mississipi); 1879, Livongstone College (Carolina do Norte); 1879, Selma University (Alabama); 1879, Florida Memorial College; 1881, Tuskegee University (Alabama); 1881, Morris Brown College (Georgia); 1881, Spelman College (Georgia); 1882, Lane College (Tennessee) 1882, Paine College; 1882, Virginia State University; 1884, Arkansas Baptist University, Little Rock; 1887, Florida A&M University; 1887, Central State University (Ohio); 1887, Philander Smith College; 1888, Saint Paul's College; 1890, Delaware State College; 1890, Savannah State College (Georgia); 1890, Kentucky State University; 1890, The Fort Valley State College (Georgia); 1892, Winston-Salem State University; 1892, Livingstone College (Carolina do Norte); 1892, Elizabeth City State University (Carolina do Norte); 1910, North Carolina Central University; 1912,Jarvis Christian College (Texas); 1912,Tennessee State University; 1915,Meharry Medical College (Tennessee); 1927, Bishop State Community College, Alabama; 1927, Compton Community College; 1929, Lewis College of Business (Michigan); 1946,New York City Technical College; 1947, Texas Southern University; 1947, Denmark Technical College (Carolina do Sul); 1949,Coahoma Community College (Mississipi); 1952, Huston_Tillotson College (Texas); 1954, West Virginia State College; 1959, Southern University (Nova Orleans); 1961, J.F. Deake State Technical College (Alabama); 1962,University of Virgin Island; 1963, Cuyahoga College; 1964, Southern University (Louisiana); 1967, Wayne County Community College; 1969, Medgar Evers College (Nova York); 1970, University of Maryland_Eastern Shore; 1972, Lawson State Community College (Alabama); 1972, Fayetteville State University (Carolina do Norte); 1974,Atlanta Metropolitan College; 1975, Morehouse School of Medicine (Georgia); 1977, University of the District of Columbia; 1980, Sojourner Douglass College (Maryland).