COMO FAZER TIJOLOS.

José Luiz P. da Costa

Vender olarias, possivelmente tenha sido, em volume de unidades, meu maior sucesso nesses dez anos de África. Hoje, no interior de Gana, em lugarejos com nomes simpáticos ou complicados como Kpandu, Cape Coast, tema, Tamalê, Bolgatanga, Kofirudua, Kumasi ou Obuasi, pode-se encontrar cerca de 14 unidades montadas e frabricando tijolos. São pequenas olarias, cada uma contendo uma extrusora, uma prensa para telhas e um motor a diesel, erguidas com material local, em seus pavilhões de madeira e fornos que queimam lenha. A história das olarias, que garantiu lances os mais diversos, alguns divertidos e outros não muito, se iniciou em 1975, quando o Embaixador de Gana, Kofi Baha Adu visitou Porto Alegre,atendendo sugestão que eu fizera, para que ele conhecesse algumas empresas gaúchas que , eventualmente,
poderiam vir a se interessar em participar da Feira Internacional de Acra, programada para janeiro de 1976, na capital de Gana. Apesar de Gana haver sido o primeiro país ao sul do Saara a obter independência de uma potência européia, nos idos de 1957; mesmo mantendo uma Embaixada no Brasil desde o início dos anos 60; embora seu embaixador Yaw Banful Turkson haver sido o primeiro diplomata africano a visitar o Rio Grande do Sul, atendendo convite do então Governador em exercício do Estado, depotado Carlos Santos - pois não obstante tudo isto, o intercâmbio comercial de Gana com o Brasil era inexpressivo. Do Rio Grande do Sul apenas uma empresa, a Marcolpolo, mantinha um regime de exportação de ônibus desmontados para lá, que eram montados pela MARK COFIE Engineering,
de propriedade do falecido engenheiro Mark Kofi, um bom amigo que tive em Gana. Em visitas que se extenderam às fábricas de Porto Alegre, São Leopoldo, Novo Hamburgo e Caxias do Sul, o Embaixador Adoo e eu conseguimos motivar 10 empresas a participar da Feira de Acra.Eu levaria amostras deseus produtos e os exibiria lá, tentando comercializá-los.Em verdade, por conta própria, eu tentava repetir a experiência de 1974, em Dacar, quando participei de uma Feira, mas como membro da Câmara de Comércio Afro-brasileira, de São Paulo. Como despedida do Embaixador, após haver cumprido um longo roteiro de visitas, houve um coquetel no Palácio Farroupilha, quando foi exibido um filme sobre o país africano. Um belo documentário colorido, mostrando a capital de Gana, o interior, as artes, a música; em suma, um mural de muito bom gosto, sobre aquele país. Convém citar, de passagem, que, entre as empresas que se dispuseram patrocinar a participação gaúcha na Feira de Acra, não havia qualquer uma que fabricasse equipamentos de olarias. No coquetel, entre muitos conhecidos (Silval Guazzelli era Governador e estava lá) havia o psicólogo do Banco do Estado do RGS, o dr. Geraldo da Silva. Homem de muita capacidade empreendora, o Geraldo soubera por outro amigo, o Francisco Piraino, também do BERGS de meu projeto. E o Geraldo fez tudo o que podia para me ajudar, promovendo, mesmo, uma reunião de empresários em São Leopoldo, no que resultou na participação de empresas daquela cidade. Após rodarem o filme, o Geraldo aproximou-se de mim e perguntou: notaste como eles fazem tijolos lá? Claro que eu não havia notado Pois eles usam formas de madeira e os fazem um a um, secando-os ao sol. Daí a sugerir um fabricante de olarias para ser contratado foi um segundo. E, a dica do Geraldo veio a se constituir no único e real sucesso de vendas na Feira de Gana. Mas, com um pouquinho de sorte não atrapalha a quem trabalha, já em Acra, em meados de janeiro de 1976, esse aforismo viria a se confirmar. E como. Meu avião saiu do Rio de Janeiro, o velho Galeão, com suas cadeirinhas em vime; com os aglomeramentos que os gigantescos aviões começavam a causar no despreparado aeroporto. O novo estava em construção e Iris Letiere ainda não gravava os anúncios de vôos com sua voz de chamar a atenção de africanos que não falam português. Do Rio de Janeiro fui para Dacar, do Senegal, pela primeira vez, seguia uma rota que os anos transformariam como minha íntima; o avião era um velho DC-8 da Ghana Airways, arrendado a uma compania alemã, e saia de Dacar às 9 da manhã, em direção a Banjul (antiga Bathurst) capital da Gâmbia, uma língua de terra encravada no Senegal. De Banjul para Serra Leoa (capital Freetown). Após Libéria (capital Monróvia) o único país da África Negra que nunca foi colônia de país europeu. Fundada por empresários americanos, mais ou menos ao tempo da Independência do Brasil, a Libéria se constitui em local para onde negros americanos imigraram (no sentido correto da palavra, pois vieram por iniciativa própria), após obter alforria na América. Da Libéria para Costa do Marfim, na moderna cidade de Abidjan (hoje servida duas vezes por semana pela VARIG) e dali, às 5 horas da tarde, chegava-se em Acra. Em cada uma dessas cidades cumpria-se o ritual de ir até a estação de passageiros, tomar um refrigerante ou uma cervejinha (já que no avião ganense as mordomias da VARIG, em rota doméstica, não existiam). E cheguei a Gana. Não sem antes haver me tornado conhecido, no vôo, de um outro brasileiro, funcionário do Banco de Boston, que iria participar da Feira, para fazer contatos. Por uso impróprio de idioma estrangeiro, o brasileiro, Moacir, viu-se envolvido em sérios problemas, cuja solução exigiu a presença do comandante do avião e este modesto gaúcho. Ele convidou as aeromoças para tirar uma foto, numa das escalas referidas e, misturando-se com as ganenses, enquanto eu batia a foto, disse em inglês: se minha mulher visse isto me mataria. Ah! Até explicar bem direitinho aquilo foi, como se diz no popular, uma mão-de-obra. Instalado no Hotel Meridien, em Tema, a quase 30 quilômetros de Acra, preparei-me para a Feira. No dia seguinte já montava, num estande quase deserto, destinado a empresas brasileiras, os produtos do Rio Grande do Sul. No dia posterior à abertura da Feira, havia inúmeros visitantes, entre eles um ganense, muito especial: era o diretor-executivo do Banco da Habitação de Gana, que havia estado no Brasil dois anos antes, adquirindo conhecimentos de como funcionava o BNH, e que voltara daqui com profunda admiração pelo nosso país. E pensava introduzir o uso do tijolo,e outros materiais de construção em seu país. Mais tarde, bem mais tarde, uns três anos após, quando já éramos bons amigos, fiquei sabendo que Mr. Edward Afriye, hoje diretor regional da PROMOVE em Nairobi, no Quênia, era descendente de Tabons - escravos brasileiros que voltaram para a Nigéria, Gana e Sierra Leoa, após obterem liberdade aqui. Mas, esta já é outra história.