Pequeno Roteiro na África Imensa — V

Guiné Portuguesa, triste herança do colonialismo.

Ao tornar-se independente de Portugal, o Cabo Verde manteve alguns laços importantes para sua economia. A moeda, escudo, não deverá ser alterada e conserva o mesmo valor do português. Nas ruas do arquipélago tanto se pode negociar com um ou outro dinheiro. Houve um fácil entrosamento pós-independência e os negócios do país com a antiga metrópole se fazem sem maiores problemas, através de bancos, como o Nacional Ultramarino. Da mesma forma, exportações que estão se processando para o Cabo Verde são feitas via Portugal, pois enquanto não são conseguidos navios diretos do Brasil para as ilhas, semanalmente continuam partindo navios de Portugal para lá. Aliás, o movimento portuário do Cabo Verde, em termos proporcionais, é considerado importante: 10 milhões de toneladas por ano. Houve, no último período, exportações da ordem de 47,9 milhões de escudos, contra importações de 656 milhões.

Escala Interessante.
Outro elemento importante do qual o Cabo Verde não se desfez é a base aérea, na Ilha do Sal. Nesta ilha, também, as grandes reservas naturais de cloreto de sódio, que ajudam a balança comercial. Quanto à base aérea, contando com moderníssimos equipamentos de apoio: uma bela estação de passageiros e, também, mais afastado, um moderno e sofisticado hotel, chamado “Pensão dos Belgas”, tudo segundo consta, mandado construir pela África do Sul. E a explicação dada pelo comandante de um dos aviões que viajei parece lógica: há bastante tempo os aviões das duas empresas aéreas da África do Sul não têm direito de tráfego em aeroportos da África Negra; não tem, sequer, permissão para sobrevoar o espaço aéreo, hoje desde Angola até o Senegal. Então, um avião saindo do Sul do Continente, não podendo sobrevoar em linha reta, nem tendo condições de pouso, para alcançar a Europa ou a América do Norte, terá fazer uma escala obrigatória em algum lugar da África. Assim, ao tempo ainda do Cabo Verde colônia, foi feito o acordo e hoje há um movimento intenso na Ilha do Sal dos grandes jatos sul-africanos que se dirigem para além África. Na chamada “Pousada dos Belgas”, ali estão permanentemente várias tripulações daquelas companhias. Os aviões chegam na Ilha do Sal, trocam toda a equipagem, se abastecem e seguem seu destino. Apesar da única opção em solo da África Negra, esta operação tem custos elevadíssimos: o preço pago ao país pela utilização da base, e, ainda, sendo a alternativa distante, os aviões partem plenos de combustível, mas com carga e passageiros a menos. Um dos ônus chamado “apartheid”.

Meio Ambiente.
Após um vôo tranqüilo, pouco mais de uma hora, chega-se à Ilha de São Vicente. Ao sobrevoá-la, a visão parecia irreal. Inacreditável, mesmo, que ali, apesar do casario, morasse vivalma. A paisagem se compunha, à frente, pelo mar, bem azul. A partir da praia as casas em estilo português, multicoloridas, com telhados bem vermelhos. À volta — tanto ao fundo da ilha, em grandes paredões de lavra escorrida, quanto à frente, dentro do mar, pois, outra pequena ilha — era tudo árido, vermelho, esturricado, sem, praticamente, nada de verde. Nas terras abaixo, sequer um filete d’água; nem uma poça. O avião voando bem baixinho, prestes a aterrar, oferecia uma visão impressionante daquela imagem de presépio. Descendo para a terra, após a acolhida de meu amigo e irmão lá residente, Mário Duarte Lopes, tudo viria a se confirmar: há mais de cinco anos não chove em São Vicente. O solo está completamente desidratado. A água potável é obtida através de uma usina de dessalinização. Um passeio pela cidade, cumprido em pouco tempo, até o morro mais alto, onde está o sistema de microondas, fez ratificar a visão de bordo: tudo terrivelmente seco. O ânimo, porém, das pessoas era completamente diferente da paisagem ambiental. O sorriso largo, a afabilidade e, sobretudo, uma crença inabalável nos dias do futuro, como país soberano.

O Homem.
De fato, desde o primeiro momento em São Vicente, como já ocorrera na Praia, e durante os vôos pela TACV, a impressão é de que o homem está desligado da paisagem agreste. Quem sabe, deveria ser seco e solitário, como o ambiente que o cerca. Talvez, entretanto, o espírito aventureiro luso, que se lançou mar afora, descobrindo brasis e terras por África e Ásia, a buscar riquezas e oportunidades, misturado com o ânimo africano, sofrido, magoado, mas capaz de extravasar carradas de alegria, untadas de milenar paciência — tudo junto tenha feito do caboverdiano, apesar de tudo, um otimista. E recordo, era segunda-feira à noite, o vento soprando sempre. A praça principal da cidade, com o hotel, a igreja e o coreto, além, naturalmente, da “voz do poste” a irradiar mornas (samba-canção) e coladeiras (chorinhos). Os bancos da praça cheios de namorados. Mas, então o detalhe: dezenas deles, fazendo voltas intermináveis ao redor da praça, na repetição emotivo da Uruguaiana que vi, em dias dos meus 20 anos. Os jovens lá estavam, felizes, uns aguardando o tempo para ir para a aula noturna. Posteriormente, nas conversas com alguns dos jovens ministros da nova República, ou nos serões, pelo menos duas vezes à volta da praça, com um objetivo mais prosaico, fazer a digestão, se falou sobre o esforço necessário para superar anos e anos de estagnação que o país enfrentou. Todos reconhecem as naturais limitações que o solo, o clima, tudo oferece: a terrível necessidade de importar até as coisas mais simples. Mas, também são unânimes, o exemplo brasileiro está à mão e deve ser seguido. Pequenas unidades fabris, simples mesmo, são belas opções para que o país supere a importação e, também, dê mão-de-obra para mais gente. Mas, isto é relevante, em cada encontro, em cada assunto longamente debatido, nunca uma palavra negativa. E, como numa de seus mais populares músicas, a morna “Um vez sao cente era sabe” (certa feita São Vicente era saboroso), está toda a esperança do povo que ficou, e pensa em dias melhores no futuro.

Para a Guiné.
Após a permanência em São Vicente restava apanhar novamente o Avro da TACV e, então, com uma pequena escala na Ilha de Santo Antão, chegar à Ilha do Sal, aí permanecer uma tarde e uma noite, para na madrugada, às 5 horas, seguir para a Guiné, num jato da Transportes Aéreos Portugueses. Porém, ao descer na Ilha do Sal, a terrível notícia: minha mala, mal etiquetada, ficara na Ilha de Santo Antão. Ali, minhas roupas, a máquina de escrever, relatórios, livros, discos; em suma, os frutos de uma longa viagem, tudo, quem sabe, perdido irremediavelmente. Então, a primeira dádiva do relacionamento feito naquelas paragens. O comandante do avião, com quem jantara na noite de minha chegada à Ilha do Sal, assegurou: apanho a mala pessoalmente na volta. Levo-a até a Ilha da Praia e lá, depois de amanhã, entrego para o comandante do avião da Guiné e, depois de amanhã, você pode apanhá-la. É claro que a promessa animou-me, mas não muito. Haveria sempre a possibilidade de, tendo ficado sozinha no aeroporto de Santo Antão, alguém fazer-se de dono. Mas não havia outra alternativa, senão acreditar no comandante, pois nem para voltar dava, já que o avião estava lotado e os transtornos seriam tantos que o risco era a melhor alternativa. Resignado, com apenas a roupa do corpo (calça e camisa esporte), uma pasta com dinheiro e documentos, bem como a máquina fotográfica, tratei de conseguir lugar no hotel a “Pensão dos Belgas”. Pois, somando-se aos pesares, não tinha lugar na pensão. Deprimido, numa ilha no Atlântico, lá fiquei esperando o gerente. A pensão, um moderno conjunto, construído em pedras vulcânicas, conta com duas unidades de hospedagem e várias cabanas, também construídas em pedra, sem cores vivas, ajudava o estado de espírito. Recebido pelo gerente, um jovem caboverdiano chamado Petone, este foi imperativo: não há lugar. Mas, ao fim das contas, a experiência já havia demonstrado, eles têm a mesma formação brasileira e, portanto, por que o jeitinho não haveria de funcionar? Quando iniciei as lamúrias, seguramente com um terrível sotaque brasileiro, ele interrompeu: você é brasileiro? Contou-me então que hospedara, meses passados, um embaixador brasileiro, que encantara a todos e lhe presenteara com discos brasileiros. Convidou-me para ir ao bar tomar uma cerveja e ouvir tais discos. Estava, assim, tudo resolvido. Na madrugada, quando num ônibus da South África Airlines fui para o aeroporto, saía da Ilha do Sal com boas recordações e sem conta a pagar, pois como ele fez questão de frisar: “foi só um quebra-galho”.

Muito Prazer.
Se há país que guarda ressentimento marcante com relação a Portugal, nomeie-se a Guiné. Foram quinhentos anos de ocupação e a situação do país é a seguinte: numa superfície de 36.125 km2, está uma população de 550 mil habitantes, que se ocupa, principalmente, da agricultura. Sua capital é Bissau, com 30 mil habitantes. Sua moeda ainda é o escudo e está por implantar uma nova, o peso. Seus principais produtos são o amendoim, peles de crocodilos, óleo de palma e madeiras tropicais. Não explora comercialmente a pesca e seu rebanho conta com 270 mil bovinos; 200 mil ovinos e caprinos além de 150 mil porcinos. Minerais, começa a exploração de bauxita. Seu comércio exterior acusa importações da ordem de 791 milhões de escudos e exportações da ordem de 66 milhões de escudos. Elevado “déficit” orçamentário e seus clientes são Portugal e ex-colônias de ultramar. No campo do ensino o maior problema: 17 mil alunos, quase todos no primário e mil no secundário. Seu orçamento anterior à independência era subconvencionado por auxílios portugueses.

Pós Guerra.
A vitória do PAIGC se deu efetivamente na Guiné. Ali a luta pela independência causou chagas profundas no país. Os jovens guineanos não tinham como estudar; ou iam compulsoriamente lutar contra seus irmãos, servindo ao Exército português, ou tinham, por impulso nacional, de se integrar ao exército do PAIGC. Uns poucos evadiram-se para países vizinhos e, ali, conseguiram cursar escolas de melhor nível. Porém, tanto para estes, quanto para os que tiveram de lutar ao lado dos portugueses, existe também uma natural resistência, pois não estavam ao lado do movimento que lutava pela independência. Há necessidade, na Guiné, de reunir todos os elementos, na busca da necessária unidade para o erguimento do país. Caminha-se pelas ruas da Guiné e sente-se no ar todas as dificuldades porque está passando o país. Além do mais, o ressentimento para com Portugal tem levado a uma política de rompimento, sensível, por exemplo em duas medidas que ocorreram quando estava lá: foram retirados todos os controladores de vôo portugueses do aeroporto de Bissau, seguramente com alguns inconvenientes mais imediatos para operações normais dos aviões. A outra medida era a iminente implantação de uma nova moeda, o peso e o desacordo operacional entre o recém criado Banco Central da Guiné e o Banco Ultramarino, mesmo na ocupação do prédio. No campo educacional está lá um brasileiro, cedido pela Unesco, para planejar as diretrizes a serem seguidas no país para fazer frente à calamitosa situação deixada pelos portugueses. Trata-se do professor Paulo Freire. Poucas semanas passadas esteve no Brasil uma missão da Guiné-Bissau, era a confirmação do ânimo que encontrei, falando com o ministro da Indústria daquele país: há necessidade urgente de nos valermos do desenvolvimento industrial brasileiro, como modelo para nosso porvir.

A volta.
A última noite em Bissau abrigou um jantar oferecido por um grupo de jovens formados no exterior (um deles é o único médico-veterinário que o país inteiro conta). E, como noutros locais onde estão jovens, também eles, cheios de esperança nos dias do futuro de seu país. Em todos uma forte convicção de que, finalmente, donos de seu destino, assumiam a responsabilidade de prover dias melhores para o amanhã de seus filhos. Regressei, também, num DC-3 das Linhas Aéreas da Guiné, já sem as emoções da vinda para o Cabo Verde. A meu lado um técnico da Tanzânia, posto à disposição da Guiné, por um organismo da ONU, para ajudar a Guiné em seus projetos de desenvolvimento. Ele ia passar alguns dias de férias em Dacar. Falamos de nossos países, o dele lá na África Oriental e o meu, dizia ele, um exemplo a ser seguidos pelos países africanos. Um Brasil do qual ele conhecia muito mais do que o querido Pelé; sabia dos nossos projetos sociais, das dificuldades, das riquezas e, enfatizava, da tenacidade e dos frutos que estão sendo colhidos. Apesar de ficar em Dacar dois dias para fazer a conexão com o avião internacional, não mais encontrei o professor Mittencourt, que agora deve estar colaborando na árdua tarefa de valorizar o país e, sobretudo, o homem da pequena e pobre Guiné. De Dacar, após 5 horas sobre o Atlântico, ouvíamos com emoção que o avião sobrevoava o Brasil. Mais empolgado, contudo, estava a meu lado o João José Correa Rosa, um jovem da Guiné para quem o deputado Carlos Santos conseguiu uma bolsa e que estava chegando para na UFRGS tirar o curso de engenharia eletrônica, área de telecomunicações. Para ele todo um futuro se abrindo, representando ele próprio uma sadia esperança para os dias futuros da Guiné.