UM PRESIDENTE NEGRO NA AMÉRICA.

 

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Em 18 de julho de 1947, o presidente Harry Truman assinou o Ato sobre a Sucessão Presidencial, alterando legislação anterior. A lei original, datada de 1792, colocara o presidente pro tempore (interino) do Senado e o presidente da Câmara dos Deputados como substitutos do presidente da República. Em 1886, todavia, o Congresso decidiu por removê-los dessa condição, fazendo recair a tarefa sobre executivos não eleitos, os integrantes do secretariado. O ato de Truman recolocou ambos os congressistas na linha de sucessão, mas com uma inversão: o presidente da Câmara precede ao senador pro tempore. Nenhum senador chegou à presidência da República, nesse longo período; seis ex-secretários de Estado, todavia, ocuparam o cargo presidencial.De acordo com o Ato sobre a Sucessão Presidencial, de 1947, se o presidente dos Estados Unidos se tornar incapaz para o exercício do cargo, por morte, renúncia ou outra causa impeditiva, como impeachment, ou condenação criminal,poderão assumir à presidência,desde que cidadão natural dos EUA,

contando com 35 anos de idade ou mais e sendo residente no país por pelo menos 14 anos, os seguintes: presidente da Câmara dos Deputados, presidente pro tempore do Senado e, pela ordem, os secretários, de Estado, do Tesouro, da Defesa, o procurador Geral, os secretários, do Interior, da Agricultura, do Comércio, da Saúde, da Habitação, dos Transportes, de Energia, da Educação, e de Assuntos dos Veteranos de Guerra.

 

Direitos Civis.

Era o período inicial dos anos 1960. A década anterior consagrara a grande conquista do movimento pelos direitos civis dos negros norte-americanos, com a vitória patrocinada pela NAACP (Associação Nacional para o Progresso da Gente de Cor) –  obtida pelo empenho do advogado Thurgood Marshall, que adiante, em 1967, viria a ser o primeiro ministro afro-americano da Suprema Corte dos EUA –  na revogação de jurisprudência anterior, que amparava a segregação racial nas escolas públicas “desde que fosse dado tratamento igual, e que negros e brancos ficassem separados” –  o caso Plessy versus Ferguson, de 1896. Começava a desmoronar, com o engajamento sempre progressivo da militância negra, o sistema da apartheid nos Estados Unidos, especialmente no Sul. Novas lideranças negras fizeram por despontar. No ano seguinte, 1955, Rosa Parks, apenas por estar cansada, após sua penosa jornada de trabalho, achou um desaforo ceder seu lugar num ônibus, na cidade de Montgomery, e ir para o fundo do veículo com os demais negros. Foi presa, mas se constituiu na ignição de um movimento de boicote ao transporte coletivo naquela cidade que durou mais de um ano, ao fim do qual a segregação nos ônibus e em outros lugares públicos passou a ser considerada ilegal. Dois anos depois, em Litlle Rock, Estado de Arkansas, por determinação do presidente Dwight D. Eisenhower, que deslocou tropas federais, o ginásio público local foi integrado, dando exemplo para o resto do Sul. E seguiram-se “sit ins” (resistência pacífica dos agentes engajados, sentando-se no chão) “Freedom Riders” (Viajantes da Liberdade), agitações nos ginásios e universidades. Então, em 1963, 28 de agosto, reúnem-se centenas de milhares de peregrinos, negros, brancos, índios e mais, à frente do Memorial a Lincoln, em Washington, quando ocorrem: o discurso em cadência de sermão batista de Martim Luther King Jr., contando de seu sonho de uma América igual para todos seus filhos. E, não menos importante, a informação pesarosa dada por Roy Wilkins, secretário-executivo da NAACP, de que na véspera, em Acra, Gana, havia falecido W. E. B. Du Bois, “que, desde o alvorecer do século vinte, fora a voz chamando cada um de vocês para este encontro de hoje”. Os movimentos pelos direitos civis tornavam-se cada vez mais organizados e demandantes, valendo-se da nova dimensão que a mídia eletrônica ensejava aos fatos e de novos instrumentos legais. A força dessa organização e pressão podia ser medida na resposta positiva que obtinha das autoridades federais constituídas e no aumento do número de vereadores, deputados e senadores estaduais. Poucos eram os deputados federais. Senadores da República, os únicos, haviam sido Hiram Rhoades Revels, entre 1870 e 1871, e Blanche Kelson Bruce, entre 1875 e 1881. O seguinte, Edward W. Brooke, somente seria eleito em 1967.

 

Romance e Realidade possível.

 

Portanto, quando o escritor Irving Wallace, em 1963, juntou essas coisas todas e escreveu um livro, The Man (O Homem), montava uma trama remotamente realizável: um suplente legal do chefe do Executivo americano, no caso um senador negro, ascender à condição de presidente da República. Em sua ficção, Wallace descontentou brancos e negros, nas mais de setecentas páginas do livro. Mas construiu uma seqüência de mortes que conduziu o presidente pro tempore do Senado, o senador negro Douglass[10] Dilman, à condição de presidente dos EUA. Num longo roteiro, estão as dificuldades do primeiro presidente negro americano, obrigado a manter o programa do popular presidente recém morto, numa viagem ao exterior. É colocado em confronto com o poderoso secretário de Estado, na ficção Arthur Eaton, o seguinte na linha de sucessão. Um conjunto de intrigas, leis casuais, coincidências e mal entendidos conduzem o presidente negro ao processo de impeachment, para o retorno, na figura do secretário de Estado branco, da chamada democracia branco-lírio daquele país. Sucede que, naquele tempo, entre ficção e realidade havia um imenso abismo intransponível.A inexistência de um senador negro. Sequer algum afro-americano, na cadeia sucessória. Hoje, George W. Bush tem como secretário de Estado Collin Powell. E a Lei de Truman está em vigor. A ficção, dos anos 60, era ousada e futurista. O ator James Earl Jones (o lutador de boxe em A Grande Esperança Branca e o almirante de Jogos Patrióticos e Caçada ao Outubro Vermelho), que representou Dilman, numa versão cinematográfica dos anos 1970, escreveu a introdução ao relançamento de The Man. Considera o livro como “profético, mesmo que nem todas as profecias que contém se tenham materializado”. Earl Jones confessa: “Ensejei-me a oportunidade de interpretar um negro que não era o estereótipo do militante”. E explica: “Naqueles dias voláteis dos anos setenta, havia a pressão generalizada para que um negro fosse um militante. Isto parecia ser o que dos negros esperavam outros negros, brancos, liberais e, mesmo, conservadores. Havia o comportamento, de regra liberal, a dizer: “Se eu fosse negro por certo estaria esbravejando de raiva”. No outro extremo do espectro estavam aqueles, conservadores, que pareciam preferir estereótipos, dizendo “Mostre-me um negro que esteja esbravejando e direi o que fazer com ele” Earl Jones escreve isso em 1999. A leitura de The Man, nos dias de hoje, à luz de conceitos “politicamente corretos”, deixará, pelo menos incomodados, muitos afro-americanos. Na época do lançamento do livro, uma das revistas dirigidas à comunidade negra dos Estados Unidos, Sepia, publicou ampla matéria, assinada por Ted Stwart, onde este ancora a eventualidade, frustrada, de um presidente negro, tanto a um comediante da época, Dick Greory, que efetivamente concorreu, em 1968, por um partido independente, quanto a George Edwin Taylor, jornalista negro, editor de um importante jornal do Meio-Oeste. Candidato presidencial pelo Partido Nacional da Liberdade, concorreu contra Theodore Roosevelt e Alton B. Parker, na convenção nacional de Saint Louis, em julho de 1904. Na referência ao fato histórico, Ted Stwart diz não saber o total de votos que conseguiu Taylor, “seguramente mais do que os obtidos pelo humorista Dick Gregory”, arremata. O humorista teve o voto militante e publicamente declarado de Ossie Davis. Ainda, Ted Stwart traz de volta a cena o debate sobre o 281 presidente dos EUA, Warren G. Harding, que concorreu à presidência em 1920, sob fortes rumores de ter um pé na cozinha.

 

Monteiro Lobato.

 

Peculiaridade da matéria na revista Sepia é a revelação, para seus leitores, do livro de Monteiro Lobato, O Presidente Negro. Assim escreve Ted Stwart: AEspeculações sobre um presidente negro americano têm assumido diversas facetas, mas nenhuma tão fantástica ou intrigante como a dada pelo escritor brasileiro Monteiro Lobato. Seu livro, intitulado "O Presidente Negro", escrito em português e nunca traduzido para o inglês, embora publicado na década de 40, muito antes do movimento Women's Lib (Liberação Feminina) se tornar moda. Lobato demonstrou acurada percepção. Seu trabalho versa sobre a eleição de um negro como presidente dos Estados Unidos, quando as mulheres formam o seu próprio partido político, numa cisão que enseja aos negros se tornarem majoritários. O ano é 2228. Jim Roy, um negro, torna-se o presidente, quando obtém 54 milhões de votos negros, numa disputa contra dois candidatos, um do partido dos homens e outro do partido das mulheres. Neste tempo, tanto o Partido Democrático, quanto o Republicano não mais existiam. Mas, como sempre tende a ocorrer, quer em 1971 ou 2228, os brancos tramam frustrar a vitória democrática. Um cientista apresenta a idéia C um raio ômega, que alisará o cabelo dos negros em segundos. Imediatamente, negros de todo o país acorrem aos institutos de beleza, batizados de Salões de Alisamento Dudley, em homenagem ao inventor. Todos desconheciam, entretanto, que o raio ômega também era um poderoso esterilizador. Com isso, a raça negra tenderia a desaparecer da América. Face ao terrível fato, Jim Ray se suicida, antes mesmo de tornar-se o primeiro presidente negro americano. “Esta a visão latina de como funciona a democracia nos Estados Unidos, ou melhor, não funciona quando o resultado eleitoral é contra os interesses dos brancos. A perspectiva de Irving Wallace, em The Man é menos pessimista, posto que o presidente negro chega a tomar posse. A eleição de um negro, Douglass Dilman, descrito pelo autor como escuro, negro, mas não como carvão, com feições negróides, é o início de um romance estranho. Pelo menos, ao termo de seu mandato Dilman tem mais suporte na opinião pública do que no início.