Mistura racial, deu certo no Brasil?

Por Era Bell Thompson (1905-1986),
Editora Internacional de Ebony.

Tradução: José Luiz Pereira da Costa

Vale a pena dar um mergulho no passado (1962), e ler o ensaio.
Título: Does Amalgamation Work in Brazil?
Sub-título: Absorção do negro através de casamentos mistos é sua resposta para o problema racial.
"Um outro grupo de comensais já se retirava após jantar de um movimentado restaurante na cidade portuária de Santos. Nossos pratos, todavia, ainda não haviam sequer sido postos. -Estamos sendo discriminados, eu disse. E não me digam que é discriminação econômica. Meus acompanhantes, um brasileiro branco e uma negra, insistiram que não. E, para provar, chamaram a um vexado garção e repetiram-lhe aquilo que eu lhes havia dito. Loquaz, em português, o garção negou a acusação. -Pergunte por que, sendo nosso o único grupo misto no salão, estamos aqui sentados aguardando, por quase uma hora, sem sermos servidos?
Num longo discurso o garção explicou-lhes que, de repente, o combustível do fogão havia acabado; que o prato solicitado era de difícil preparo. Havíamos solicitado peixe e estávamos numa casa que se dizia especializada nisto. Meus acompanhantes admitiram, então, que eram desculpas e fracas. Mas, não obstante, insistiram que raça nada tinha a ver com os fatos. Sabe como é lamuriou o brasileiro branco tais coisas acontecem! Ignoremos isto, asseverou a brasileira negra. É questão racial, repeti. Não e não! protestou a assustada brasileira. Tais coisas não acontecem aqui. E vou provar para você. Ela chamou ainda outra vez o garção. Houve nova discussão entre eles. O funcionário do restaurante agora já suava. Ele está chateado, traduziram meus acompanhantes. Ele lhes dissera: Como poderia eu, um português, casado com uma mulher de cor, ter preconceito?
O casamento de um português com uma mulher de cor, bem como o casamento de uma mulher branca com um homem de cor é a solução brasileira para resolver seus problemas raciais, antes mesmo que eles comecem a existir. Na medida em que o processo de amalgamação avance o segmento mais escuro da população vai desaparecendo. Sumido o elemento negro, o problema deixaria de existir. Majoritariamente os brasileiros crêem que não têm, presentemente, o problema racial. Assim pensando, não há preconceito racial ou discriminação pouco importa quanto tempo tenhamos que esperar para comer um peixe. Se incidentes de discriminação acontecem eles são de ordem econômica, não racial e causados por estrangeiros, nunca por brasileiros. Historicamente os portugueses têm-se misturado com raças mais escuras. Eles próprios se infundiram com o sangue dos mouros e dos berberes, assim como, sem preconceitos, se misturaram e casaram-se com índios e africanos nos primórdios da história do Brasil. Mais tarde, europeus e imigrantes orientais foram adicionados à feijoada que nem ferve, nem cozinha! O maior produtor mundial de café está celebrando quatro séculos de progresso numa sociedade que, deliberadamente, estimula a miscigenação. O Brasil é hoje elogiado por ser modelo de democracia racial onde à presença de sangue negro, ou índio, não impede que um brasileiro seja considerado branco. Negros americanos que já viajaram em direção ao sul concordam que o Brasil é, sem dúvidas, um país racialmente misto, mas há uma divergência, contudo, de parâmetros. Em 1948 o colunista George S. Schuyler anotou um aumento do preconceito anti-negros e também da discriminação. Em 1951 a dançarina Katherine Dunham, não aceita em certo hotel de São Paulo, observou que o homem que lhe abriu a porta de seu táxi era negro; o que limpava o piso do saguão, num edifício onde teve um encontro, era mulato; mais claro que ambos era o ascensorista, que a conduziu para uma reunião nesse edifício. A recepcionista que a saudou era, também, mulata clara, mas aquele com quem foi tratar de negócios era branco. Um estudo posterior da UNESCO confirmou existência de forma discreta, porém crescente, de discriminação no Brasil, fato, aliás, admitido em alguns de seus jornais e periódicos e confirmado por proeminentes sociólogos. Com tantas e tão conflitantes opiniões e tanto conflito racial em nosso próprio país, EBONY enviou-me ao Brasil para verificar se preconceito e discriminação racial existem, bem como estudar como funciona a amalgamação. Eu desejava saber porque num país com quatro vezes mais negros do que os Estados Unidos (37%), onde a escravidão se iniciou muito antes (1532) e durou mais 111 anos (1888), não se vêem demonstrações de rua ou pequenas Selmas; porque uma nação que assegurou aos negros plenos direitos civis, que aprovou uma lei anti-discriminação 13 anos antes de nós, tem desproporcionalmente mais negros limpando ambientes do que sentados às mesas dos escritórios. Passei dois meses nesse paraíso tropical viajando do frio, influente e predominantemente branco Sul, ao quente, pobre e majoritariamente negro Nordeste, com demoradas estadas nos antigos centros de escravos ao longo de quase 8 mil quilômetros de costas pontilhadas de palmeiras. Eu participei de cerimônias de candomblé nas montanhas; comi vatapá cozido por baianas de turbante, postadas nas esquinas das cidades. Conversei com trabalhadores da indústria do petróleo; com vaqueiros; com sociólogos; dançarinos e sobrevivi a quatro caóticos dias de carnaval, este, outro exemplo da influência africana na cultura brasileira. Agora entendo porque um bem intencionado pesquisador retornou aos Estados Unidos perplexo. É que ele como eu descobrimos, estando lá, quão pouco se conhece a respeito da América do Sul e, em especial, de um país chamado Brasil.
O Brasil tem mais do que carnaval, café e Carmen Mirandas. O Brasil é grande, quente e está a nove horas em jato de Nova York. Esta república com 22 estados cobre praticamente a metade da América do Sul e é maior do que os originais 48 estados americanos. Um terço do país é composto de selvas. Noventa e três por cento fica nos trópicos e seu junho é o nosso janeiro. Com uma população em torno aos 70 milhões é o maior país católico do mundo e o único que fala português em todo o hemisfério. Na América do Sul, à parte as Guianas, apenas o Equador, com 10% de negros e mulatos, se aproxima da proporção de negros e mulatos do Brasil. Nos demais países os negros foram absorvidos e seu número é pouco expressivo. O Brasil é um país onde modernos edifícios se projetam ao lado de favelas; barracos e bois convivem com tratores. O Divórcio é proibido e votar é obrigatório. Ainda rei do café, o Brasil já foi o maior produtor de borracha e diamantes do mundo. É o segundo em plantio de cacau, terceiro em dendê, produz ainda açúcar e milho. Coloca-se no sétimo lugar entre os produtores de automóveis. Apesar de suas imensas reservas naturais, a renda per capita é de apenas US$ 322. A inflação atingiu 80% no ano passado. Graças, porém, ao presidente Castello Branco os preços estão decrescendo. Os cidadãos não se sentem empolgados a respeito de sua nova capital, Brasília, agora com cinco anos, isolada e que custou US$ 345 milhões. Com o cruzeiro dando mostras de estabilidade as coisas, parece, irão agora num crescendo. O quadro racial, entretanto, é outra história e muito mais complexa. Em primeiro lugar, " negro " é uma palavra suja. À parte estudiosos e pequenos grupos de nacionalistas negros, a maioria prefere o tratamento de "de cor". Minha nega é termo carinhoso, usado entre amigos íntimos e enamorados. Comparado com os Estados Unidos, brasileiros dizem eles não tem um problema racial. Eles têm, todavia, preconceito baseado na cor da pele, que divide a população em três grupos. No topo da escada estão os brancos. Aí incluem-se portugueses brancos. Europeus brancos e "brancos de sociedade", os visivelmente miscigenados, que o povo os chamada de morenos. Na base da escada os pretos ou negros. O grande grupo no meio são os pardos ou os de sangue misturado: portugueses, índios e africanos. A maioria dos pardos são mulatos, resultado da mistura de portugueses com africanos. A mistura entre índios e portugueses resultou num tipo chamado de caboclo e entre índios e africanos surgiu o cafuzo. Em algumas áreas do nordeste do Brasil a divisão não termina por aí, mas é adicionada de critérios que envolvem o tipo do cabelo e tonalidades de cor da pele. Ao lado de um punhado de índios puros, apenas os negros (11% da população) e os europeus brancos permanecem inalterados. De acordo com os mais recentes estudos demográficos, todos os três grupos estão em fase de extinção, na medida em que o número de pardos aumenta. Se as propriedades de embranquecimento advindas da amalgamação irá gerar uma nação beije ou café com leite, apenas o tempo dirá, mas o desejo e o caminho que seguem é para um Brasil branco. Mais escuro o homem maior seu problema. O poeta Gregório de Matos já entedia assim no século XVII, quando escreveu: " O Brasil é um inferno para os negros; purgatório para os brancos e paraíso para os mulatos." O Brasil que eu vi não é o abrigo para negros que se diz, tampouco o inferno de que fala Gregório de Matos, mas o negro consegue maior aceitação social do que em qualquer outro país "branco". Lá se diz que a riqueza e educação podem transformar um negro em branco; um casamento de uma branca com um negro pode representar melhoria na qualificação social dela. Mas com dois terços de brasileiros analfabetos e com massas de negros pobres, "negro-branco" permanece como uma raridade. Mobilidade social ocorre mais rapidamente nos estratos mais baixos do espectro racial. Um homem negro de educação e posses pode ser assimilado pelo grupo dos pardos, sem qualquer dificuldade. Uns poucos tornam-se brancos da classe alta, mas da elite, jamais. Podem até casar-se com mulheres brancas do seu nível. Raramente casam-se em nível superior. " Meus irmãos têm um colega de classe, negro, que é freqüentador assíduo de nossa casa", disse-me uma mulher morena, da alta sociedade." Nós somos muito amigos, mas ele jamais poderia casar-se com minha irmã". Ante a frase familiar, perguntei, por que? " No Brasil, ela explicou, um homem se integra na família da moça". O estudante é aceito em nossa casa, porém, seus pais nunca privarão conosco. Não estão em nosso nível social." Sua irmã é casada com um mulato." Quando um negro é admitido na sociedade branca o faz abertamente, pois no Brasil não há porque esconder, como aqui, a presença de sangue negro. Elegantes senhoras e distintos cavalheiros falam com desembaraço sobre ancestrais negros, sem que isto represente qualquer embaraço em seu relacionamento social. "Somos um país de mulatos, o único no mundo" me disse o escritor Jorge Amado. "Ninguém pode dizer que não possui sangue negro, que seja cem por cento branco". De acordo com uma anedota popular, quando Deus estava selecionando candidatos para o céu disse: Este é alemão. Este é suíço. Finalmente, olhando para uma bonita mulata perguntou: De que raça é esta? É de minha criação? Erguendo-se falou, alto, um português: Não, Senhor, esta é minha criação! Para os portugueses este foi um ato de amor. Sua herança escura pode ser encontrada em toda a parte e, graças à sua virilidade, continua a crescer. O espectro do ter sangue negro, que martiriza os norte-americanos, em oposição, no Brasil, transformou a mulata em tipo ideal do brasileiro. A louvação à jovem mulata é tema de muitas músicas de carnaval. Uma delas diz:

O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor,
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata eu quero o teu amor!

No ano passado a representante do Brasil no concurso de Miss Universo foi Vera Lúcia Couto dos Santos, alta e de escura beleza. Ela seria classificada como negra em qualquer parte. Todavia seu longo e ondulado cabelo, bem como traços nórdicos fazem dela uma mulata, no Brasil. A escolha de Vera levantou rumores de desagrado, os mesmos que conseguiram manter as forças armadas e o corpo diplomático virtualmente brancos. Mas de apreciação, também, daquele que detentores de uma consciência brasileira expressaram orgulho por estarem sendo representados por uma verdadeira beleza nativa. A mulher negra por ter sido a amante no passado. Muitas podem estar vivendo ainda hoje no concubinato, da mesma forma que milhões delas o fazem, brancas também, num Brasil sem divórcio. Como grupo humano, todavia, são respeitadas. "Sexo não é fator dominante aqui, na questão racial" disse Ruy Mesquita, diretor do jornal "O Estado de São Paulo", o mais importante jornal brasileiro. " Respeitamos a convivência. Não reputamos seja o homem ou a mulher negros inferiores". Ruy, um belo herdeiro de antiga família portuguesa, apontando para um largo mural, em seu amplo escritório, ressaltava a presença entre os fundadores de um mulato, Francisco Glicerio de Cerqueira Leite. " Nós, portugueses, não temos preconceito", ele continuou. "Um de nossos mais destacados editores era neto de um escravo". Quando perguntei quantos negros estão no Congresso, um repórter respondeu: " Seria mais fácil contar aqueles que são brancos". Se um mulato escolhe por ser branco ele assim o será, tanto que sua carteira de motorista confirmará, pouco importando quão escura seja sua pele. Por determinação legal a declaração de cor é deixada a cada um, o que faz suspeito o indicativo de 60% de brancos. Pelo menos um presidente, Nilo Peçanha (1910-11) e um vice-presidente, Melo Viana, bem como um governador da Bahia e um prefeito de São Paulo eram mulatos. Outro mulato, o advogado Ruy Barbosa participou a elaboração de Constituição brasileira. A relação de mistos dentre os artistas e escritores brasileiros é longa demais para ser citada aqui. Mas o importante é que, líderes que nos Estados Unidos seriam classificados como negros, são brancos no Brasil. Ficaram para trás os pardos, na metade do caminho do ponto de absorção. Os negros, ainda limpando os corredores, sequer começaram a descascar. Conhecedores do negócio de embranquecimento os mulatos brasileiros estão dando sua contribuição em favor de um país mais branco, pelo casamento com mulheres brancas. Em assim agindo trocam estabilidade financeira por status social. Todos os casais mistos com que falei disseram ser normalmente aceitos em suas comunidades, mas sabiam de outros que haviam sofrido problemas, especialmente em São Paulo, que diziam ser a cidade com mais preconceito no Brasil. A Dra. Irajá Iracema Sant'Ána objeta a tais casamentos, mas por diferentes razões: " Nada tenho contra casamentos inter-raciais", disse a jovem ginecologista, de bela pele marrom, durante uma recepção em sua casa de dois níveis: "mas não creio que nossos homens devam casar-se abaixo de seu nível". Nem todos os homens negros, quando escolhem parceiros brancos, o fazem deliberadamente. Numa sociedade onde as pessoas se misturam livremente casais se formam a partir do acaso. O Dr. Terêncio José Luz, cujo bisavô veio da Costa do Marfim, na África, conheceu sua esposa, branca, através de sua irmã, uma de suas pacientes. O vereador Ary Silva, cuja avó foi cozinheira do presidente Rodrigues Alves, encontrou sua esposa numa recepção em um clube social italiano. Rivadavia da Silva, relações públicas do Banco da Bahia, fez sua escolha através de um processo de eliminação. Silva empreendeu uma viagem de barco para visitar seus pais. A bordo havia seis garotas com as quais fez amizade. Quando retornou a Salvador convidou-as para irem ao cinema. Quatro vieram. Convidou essas quatro para um outro evento, sendo que, desta feita, apenas duas apareceram. Sorrindo ele contou que elas suspeitaram que eu não estava sendo sincero com nenhuma delas. Para o próximo convite apenas uma apareceu, sendo esta branca. Com esta ele se casou. Um dos melhores exemplos de contínuos casamentos inter-raciais é dado pela família Marques, de Recife. Não apenas os homens casaram-se com mulheres brancas, como as mulheres casaram-se com homens brancos, todos seguindo o exemplo deixado pelo chefe do clã, o falecido Dr. Arnóbio Marques, que clinicou tanto em Paris quanto no Brasil, por mais de 50 anos. Um negro brasileiro casou-se com uma portuguesa. Ele era professor de cirurgia, na Faculdade de Medicina, da Universidade do Recife. Um mulato claro, filho, Dr. Romero, objeto de respeito e honrarias em dois continentes, face a seu trabalho no campo das desordens cardiovascularesres, é hoje diretor de sua Faculdade. Casou-se com uma mulher branca. O filho mais velho, Dr. Marcio, também é casado com uma mulher branca e trabalha com seu pai na Universidade. A filha Helena é casada com advogado branco. Márcio e Helena têm um filho cada, representando a quarta geração. A cor de Arnóbio, o chefe do clã, desapareceu de todo. Um segundo filho está na Escola de Medicina, no caminho de seu avô, do irmão, um tio e dois primos. O jovem Sylvio está ainda no ginásio. Com a cor de sua pele e uma origem tão ilustre, os netos do Dr. Arnóbio nasceram socialmente brancos. Sua loura e jovem neta pode casar-se em meio a elite do Recife; mas seus dois filhos não são plenamente aceitos. " Nós freqüentar qualquer dos lugares que os brancos freqüentam" C admitiu o bronzeado Sylvio. " Não existem barreiras, mas não somos completamente aceitos", acrescentou o irmão Romero. " Nas classes média e alta a cor não importa muito. Porém, nas classes mais altas, dos descendentes de holandeses e descendentes de portugueses, atuais barões do açúcar, nada é dito, porém pode-se sentir uma diferença". A cor ou a falta dela é o símbolo de status que permite ao mulato subir alto e rápido na sociedade branca, sendo isto a conquista de um verdadeiro anseio nacional. O objetivo alcançado representa, da mesma forma, afastar-se de seus irmãos mais escuros. O sentimento de inveja de uns e de superioridade de outros tem resultado em ódio recíproco em áreas mais tensas do país."Os mulatos demonstram mais preconceito em relação aos negros do que os brancos", foi o que me disse o professor Thales de Azevedo, entre aulas de filosofia, na Universidade da Bahia. "Em níveis mais baixos existe menos distinção entre eles". A acusação mais comum aos mulatos, tanto por brancos quanto pelos pretos é de que o mulato "deseja ser branco". Dando especial ênfase na questão branca, perguntei ao Dr. Rene Ribeiro, antropologista recifense se era ruim ser negro. "Sim" ele declarou. "Ninguém deseja ser negro". O embaixador Raimundo de Souza Dantas, renomado jornalista e autor disse que "cidadãos negros deparam-se com o preconceito em cada esquina da vida". O ex-diplomata (Gana, 1961-63) vive num bairro nobre do Rio de Janeiro. Seu motorista e um secretário são ambos brancos e seus três filhos freqüentam escolas caras. Ele é aceito como branco, mas prefere ser chamado de negro. Dantas, seu filho, foi rejeitado no Iate Clube do Rio de Janeiro, aonde Dantas, como embaixador, é aceito, mas não como sócio. Dr. Edgar Teotonio Santana é um eminente cardiologista que vive em São Paulo. Nascido na Bahia de uma ilustre família, ele tem posição, educação, cultura, dinheiro e uma esposa cabocla que representa quatro gerações de paulistas. Os Santana patrocinam belas artes. Seus retratos aparecem com freqüência em páginas sociais dos jornais. Teoricamente ele é um branco da classe alta. Porém, em realidade, ele é negro. "Aqui, o preconceito é limitado aos negros pobres", disse-me, sentado na sala de estar de seu apartamento basto em obras de arte. "Algumas modificações foram feitas, com o envolvimento da alta sociedade. " Para um preto ter uma vida confortável aqui", comentou o dentista Aloísio Cruz " ele precisa ser um profissional e ter grau universitário". O Dr. Cruz vive em Salvador, Bahia, "a capital mundial da integração". Sua casa é atendida por quatro serviçais e ele possui uma fazenda de cacau na costa. Por ser negro se diz não bem aceito em clubes, a parte mais importante da estrutura social brasileira. O Dr. Cruz retirou seus dois filhos do colégio Pan-Americano pois não conseguiam conviver com seus colegas, muitos deles filhos de brancos texanos, empregados pela Petrobrás, a empresa estatal que explora o petróleo." Antigamente, recordou, a maioria dos estrangeiros por aqui eram portugueses. Conheciamo-nos uns aos outros. Hoje Salvador é uma cidade de estranhos". Se não for reconhecido por alguém um "branco negro" pode ficar ignorado num canto, como ocorreu com o experimentado professor carioca, que chama isto de miopia social, mas não discriminação racial."A maioria dos negros são pobres", ele explica. Assim, um motorista de táxi pode deixar de atender algum negro, apenas pela presunção de que ele não tem dinheiro para pagar a corrida. O brasileiro negro educado, que seja menos abonado, terá maior dificuldade em atingir o status de branco. Um jovem economista em viagem para uma pesquisa de marketing para sua empresa não foi atendido em um restaurante interiorano. "Eu não conheço você, disse um dos garções. Você é negro". " Se visto uma gravata, viajando pelo interior, me recebem como sujeito importante. Mas tenho de dar gorjetas aos recepcionistas de hotéis", acrescentou. Os "brancos da Bahia", segunda ou terceira geração de mulatos, com todas as caraterísticas de serem brancos, continuam agindo como negros. Porém alguns preferem viajar para lugares tão distantes como Santa Catarina, onde encontram louras descendentes de alemães que, ainda falam alemão, com quem casam. Jose Luiz Pereira da Costa, na redação do jornal católico onde trabalha, disse: " Aqui em Porto Alegre (onde existem muitos imigrantes europeus) não temos marcante discriminação, pelo menos até que se namore uma garota branca. Aí se inicia o problema". Como regra geral não existe algo que se possa classificar como "branca\negra", embora ela possua as qualidade necessárias para atingir um estrato social mais alto. Casar-se com ela representará decrescer, não subir, o status de um homem negro igualmente bem educado. Sobra-lhe o menos qualificado parceiro, branco ou negro. De acordo com Carlos Castello Branco, um repórter em Brasília, algo de novo foi acrescido a mazela racial no Nordeste do País. Alguns membros da elite, agora pobre, começou a se casar com mulatos. "Encontrei três de minha família trabalhando em um banco numa visita a minha casa", disse ele. "E cada um deles era de cor diferente". Um novo jeito de encarar a questão racial começa a surgir entre os jovens. "Não falamos a respeito de cor", disse o jovem, moreno, advogado Walter Costa Porto. " Os mais velhos têm uma maneira diversa de ver essa questão de status social. Nós somos mais livres de preconceitos e discriminação. No casamento não se põe uma questão de cor ou raça, mas de amor". Porto, cuja bisavó era africana, admitiu que poucos "morenos" casam-se com jovens mais escuras do que eles próprios. " Eu casaria, acrescentou, se eu a amasse. Tenho amigos que assim o fizeram".

PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO.
A menção preconceito racial e discriminação no Brasil traz de imediato debate cheio de posições conflitantes. "Isto não existe no Brasil", afirma um político oriundo de um Estado onde um caso de preconceito está sub-judice. "Não existe nenhum", afirma um educador que tem como secretário um negro. " Nunca notei algo aqui". " Preconceito, e não segregação", disse um doutor. " Incidentes, sim. Mas não problemas, disse um deputado. " É tolice dizer que não há discriminação", afirma um outro. " Separação racial está aumentando aqui", assevera um filósofo. " Está crescendo apenas porque o país também está crescendo", diz um senador. " Aqui o problema está solucionado", conclui um advogado. Todos concordam que o negro, dependendo das circunstâncias não enfrenta problemas raciais, mas, como diz o vereador Eduardo de Oliveira,"a questão é chegar às boas circunstâncias". O professor Francisco Iglesias, um historiador na Universidade de Minas Gerais, oferece uma solução, não para o problema, mas para questão relativa à existência do problema. Pergunte a um branco a seguintes questões ele diz , e você obterá as respostas seguintes: Você é preconceituoso? Não. Você receberia um negro em sua casa? Sim. Você aceita bem um negro como coleguinha de seu filho. Tudo bem. Você gostaria que seu irmão casasse com uma negra? Não! Chame isto de econômico, se assim o desejar. Ou preconceito ou discriminação. Mas um fato permanece: apesar da existência de uma lei proibindo isto, a "consciência brasileira", a ignora. Existem lugares onde os brasileiros negros não são bem recebidos e existem empresas que não o empregarão. E, embora grande quantidade de "irmãs" brancas estejam-se casando com negros, existem os brancos das classes mais altas que a isto desaprovam.

LEI BRASILEIRA ANTI-PRECONCEITO.
Senador Affonso Arinos de Mello Franco é o autor da lei brasileira anti-discriminação. Ele tornou-se consciente da necessidade dessa lei, pela primeira vez, quando soube que a esposa alemã de seu motorista negro podia freqüentar uma sorveteria de americanos, no Rio de Janeiro, mas seu marido não. A recusa hospedar Miss Dunham num hotel de São Paulo levantou a opinião pública e levou a uma ação. O Código Penal de 1890 cobre praticamente da mesma forma que nossa lei dos direitos civis igual matéria. De fato, o senador pensa que nossa legislação foi calcada em sua lei. Muito negros firmes na crença da inexistência de preconceito no Brasil temiam que uma lei como aquela viesse a criá-lo. Mas houve júbilo geral quando o diploma legal se tornou realidade em 3 de julho de 1951. Alguns brancos reagiram com amargura. Um tio do senador advertiu-o: "Você encontrou apenas dois negros em sua vida seu motorista e a mulher que o criou. Por causa disto você incomoda o restante dos brasileiros!" Ciente de que no Brasil edita-se muita lei, mas poucas são cumpridas, o senador Affonso Arinos acredita que a lei funcionará como uma advertência para o país inteiro, para que evite o preconceito racial. Seu sucesso como remédio preventivo dependerá, em muito, da força da imprensa. A publicidade de certos incidentes, considerando-os impatrióticos, causam mais dano do que as penas previstas na lei. Enquanto bebíamos um chá vespertino na casa de seu filho, também deputado, Arinos narrou que a publicidade fora um fator poderoso para forçar as freiras espanholas a receber crianças negras em suas escolas, e como, da mesma forma, a publicidade ensejara a quase destruição de um salão de beleza na Bahia que se recusara atender uma jovem negra. Como é difícil provar discriminação e preconceito, poucos casos acabam nos tribunais. Numa rápida olhada, constatei que os clubes privados não são referidos na lei. " Quando o Clube Germânia, no Rio Grande do Sul, se recusou a aceitar negros ele disse , fui coberto de cartas reclamando que os clubes deveriam ter sido incluídos. Ora, a lei cobre preconceito em qualquer lugar, assim os clubes estão incluídos". Na correspondência recebida, o senador era acusado de ser mestiço. Uma missivista perguntou-lhe se tinha alguma filha apaixonada por um negro. Disse-me, então, o oitavo deputado federal na linha familiar, originada de portugueses que chegaram ao Brasil em 1750: A dúvida quanto a ter sangue misto podem estar correta. Eu não sei. Gostaria que sim, se ter sangue mestiço torna-me mais brasileiro". Chamado, certa feita, por um texano, de líder branco dos negros brasileiros, tem sido freqüentemente indagado se ficaria feliz em ver uma filha (o senador tem apenas filhos) casada com um negro. "Eu não tenho preconceitos. Não sei como reagiria", ele confessou. "Não iria magoar-me pessoalmente. Creio, todavia, que poderia representar problemas para meu filho que é diplomata e representa o Brasil em outros países". Ambos os filhos do senador são casados com mulheres de origem européia. O mundialmente renomado sociólogo e autor, Dr. Gilberto Freyre discorda da efetividade da medida. "Uma lei contra alguma coisa não é legislativa", ele argumenta. " É fácil de contorná-la. Pode ter certo efeito psicológico em italianos donos de hotel. Necessitamos é tornar os brasileiros mais orgulhosos de suas origens, o que tornará o preconceito insignificante. E torná-lo insignificante, não copiar o preconceito de outros países". Dr. Freyre não inclui camponeses imigrantes no conceito de "outros países", senão que técnicos trazidos de países como Estados Unidos da América, Alemanha ou Bélgica. O preconceito mais estremado que ele conhece é o norte-americano. Há certo consenso no sentido de que a lei visa estrangeiros que dirigem ou são proprietários de hotéis e de que, para brasileiros, essa lei não seria necessária. Poucos acusam brancos brasileiros de discriminarem a moto próprio; fazem porque pensam que em assim agindo estariam agradando aos hóspedes norte-americanos que estariam esperando que eles assim o agissem. Existe, também, os que pensam faltar aos negros brasileiros mais coragem para bater em portas ainda não experimentadas. " Os negros brasileiros devem forçar sua entrada em clubes para brancos e parar de imitar negros americanos, que criam suas própria sociedades e seus concursos de beleza", asseverou o professor Vivaldo Costa Lima quando eu o entrevistei em seu escritório no Instituto de Estudos Afro-orientais, em Salvador, Bahia. " Eles estão resistindo à assimilação e isto é perigoso. Isto não é brasileiro". Deparando com tal tipo de militância pela primeira vez, tomei-o por branco. " Você pensa que eu seria branco nos Estados Unidos com este cabelo que tenho?" - perguntou-me, apontando para sua crespidão. As mais irrefutáveis áreas da discriminação sao as forças armadas e a diplomacia. A Força Aérea não tem qualquer oficial re- conhecidamente negro, mas a Marinha tem, face a um debate, pelo menos um inquestionavelmente negro. Apenas três por cento dos mais altos postos das forças armadas são ocupados por não brancos, incluindo-se aí um marechal. O único embaixador negro foi enviado para a África. Negros brasileiros raramente buscam hospedar-se nos melhores hotéis e comer em finos restaurantes, nem muitos podem, em verdade, enfrentar tal desafio, num universo de salário mínimo de 24 dólares por mês. Muitos dos reclamos de racismo vêm, conseqüentemente, de negros americanos visitando o Brasil. Num hotel em que a população local manifestou sua crença na existência de preconceito e onde o porteiro, antes de retirar minhas malas, perguntou-me se tinha reserva, encontrei flores e uma cesta de frutas, com um cartão de cumprimentos do gerente. Acusações constantes de uma matéria num jornal do Rio de Janeiro registravam um índice de 70% vivendo nas favelas e acusando imobiliárias de dificultar a locação para negros. Eu vi áreas negras nas cidades que visitei. É verdade que as favelas são maciçamente negras, da mesma forma que o são os pobres. Negros de posses narraram-me não haverem tido dificuldade em alugar ou comprar casas nas áreas que acharam por bem escolher. Brancos pobres não demonstram hostilidade contra seus vizinhos negros. Eu perguntei ao fotógrafo que me acompanhava se havia brasileiros escuros vivendo em seu edifício de classe média. Teve de pensar um pouco. "Sim, pelo menos um" afirmou. No Brasil todos pertencem a algum tipo de clube, mesmo aqueles que vivem em favelas. Praticamente todos os clubes tem seu time de futebol, cujos jogadores, como o grande Pelé, são na maioria negros. O Iate Clube do Rio de Janeiro não aceita negros, me disseram. Mas três doutores negros pertencem ao Iate Clube de Recife. Com 7 piscinas, 7 mil associados," o Sport Club do Recife outrora não aceitava negros. Hoje todos podem a ele se associar", diz rindo o Dr. Jamesson Ferreira Lima, um associado. "Até mesmo um americano!" As piscinas de clubes era território proibido para os negros em alguns clubes de São Paulo. Ary da Silva, porém, liderou uma campanha na imprensa contra tal prática, que resultou no fim dela. A política do "todo branco" Fluminense, no que concerne a seus jogadores foi questionada, quanto ao acesso às demais atividades lhes eram barradas. Ficou decidido que, como empregados, os jogadores de futebol não desfrutariam das facilidades inerentes aos associados do clube. Este tipo de discriminação poucos brasileiros são capazes de admitir como ocorrendo. Todavia, a necessidade de se associarem, de ter clubes, fez com que pelo país inteiro surgissem chamadas sociedades culturais, algo aproximado da NAACP - National Associoation for Advancement of Corlored People (Associação Nacional para o Progresso da Gente de Cor), num país onde qualquer benefício para um determinado grupo étnico é proibido por lei. Nesse sistema de progride e vai em frente, cada vez mais os negros sentem que, melhorando seu padrão educacional e cultural, o que é desfrutado por outros, poderá ir em frente e, também, por eles ser assimilado: este será reconhecido como um negro-branco. Outros, todavia, são mais conscientes da questão racial. O presidente do Clube Renascença, Sebastião José de Oliveira, que patrocinou Vera, candidata a Miss Brasil, disse que o propósito de engajar uma candidata foi o de combater o preconceito racial. O Clube Kenya, do Rio de Janeiro, um grupo de graduados em cursos universitários, estará patrocinando, em agosto, um seminário de âmbito nacional para discutir os problemas do homem-de-cor. O mais recente objetivo da Casa de Cultura Afro-brasileira, em São Paulo, é promover um congresso internacional para mostrar o real valor daqueles que tiveram a oportunidade de estudar. Os maiores obstáculos para o desenvolvimento de todos os brasileiros são a pobreza e a falta de meios para educação. Resolvido o problema econômico, desaparece, também, o problema do negro. Oportunidades de trabalho são limitadas em muitos centros urbanos. Eles estão bem representados no corpo editorial de jornais, ocupam posições de relevo na Petrobrás e em universidades, mas com insistente freqüência, aparecem, de repente, varrendo o chão. Anúncios que exigem "boa aparência", geralmente significam "aparência branca" A ausência de empregados negros em grandes magazines no ramo da alta costura parece ser decorrência disto. Existem mais de 3.500 empresas americanas em São Paulo, disse-me um economista branco. E, na maioria, trouxeram seus hábitos junto. Perguntando sobre discriminação na contratação de jovens para as lojas SEARS de São Paulo ele descobriu que o brasileiro encarregado que contratar pessoal discriminava a partir da presunção de que a empresa americana não os desejava. Quando ele escreveu para RCA reclamando sobre a política discriminatório recebeu uma carta do presidente da companhia dizendo que, no momento em que a matriz parasse de dificultar o emprego de mão de obra negra, no Brasil eles fariam o mesmo. A escassez de escolas torna difícil para qualquer criança conseguir educação, não importa se branca ou negra. Apenas aqueles que dispõem de dinheiro podem pagar colégios particulares cujas anuidades são altas. E, em alguns casos, não importa dinheiro, aceitam apenas brancos. Para minha surpresa os maiores transgressores são as escolas católicas. Alguns conventos não aceitam meninas negras. Jovens com quem falei no Rio não se assustavam em dar os nomes de escolas católicas que recusavam matrículas de negros. Existem vários padres negros, mas, seguramente, nenhum bispo. Talvez o mais incomum caso de discriminação que tomei conhecimento foi da visita de um dignitário africano. Durante um passeio pela Bahia ele foi levado a um prostíbulo. Nenhuma das garotas quis ficar com ele. "Como ousa, uma prostituta," ele esbravejou "recusar um diplomata!" O líder segregacionista do estado do Alabama, rev. Russell Pate ameaça com decadência igual à queda do Império Romano se começarem a ocorrer casamentos inter-raciais e se a segregação for abolida. O reverendo Pate, seguramente, jamais ouviu falar do Brasil, nosso vizinho sul-americano que se compraz em afirmar ser o maior cadinho racial; lugar onde discriminação racial é considerado impatriótico, onde casamentos inter-raciais são uma forma de vida. E o Brasil não está à beira do precipício. Uma nação branca é considerada como ideal em ambos países. Diferem, apenas, nos métodos usados: para manter-se, nos Estados Unidos, e para obter isto, no Brasil. Naquele país o caminho para a caucasianização passa pela amalgamação. Não sofrendo dos receios do rev. Pate, os brasileiros encontraram na miscigenação o caminho mais rápido. Os esforços em nosso país para separar as raças branca e negra não apenas falharam, mas fomentaram 100 anos de tensão racial. Esforços em nossos dias para melhorar a imagem de nossa democracia via integração - não a biológica -, tem encontrado oposição violenta. Hoje o Brasil é, de longe, o menos desenvolvido dos dois países, apesar de haver importado cinco vezes mais escravos do que os Estados Unidos. De outra parte, apesar de ter 37% mais descendentes escravos, que foram libertados 23 anos após a proclamação de nossa emancipação, no Brasil nunca um negro foi linchado; não ocorreu distúrbio racial; não houve marchas pela liberdade. Não se registrou Conselhos de Homens Brancos ou Muçulmanos negros. Eu fui designada para esta missão no Brasil e ver se a miscigenação lá praticada funciona e, em caso positivo, por que? Para comparar sua aprovada miscigenação com nosso desejo de integração e ver o que há de verdade a respeito do status social e econômico do negro lá. Para uma melhor compreensão do que está por trás dos sistemas adotados pelos dois maiores países americanos, e entender a própria questão racial, há que olhar para suas respectivas pátrias-mães. Por mais de 500 anos (711-1244AD) Portugal foi ocupado por invasores africanos: de pele escura mouros e berberes. Para uma mulher portuguesa casar com um educado mouro conquistador havia mais do que uma rendição social, assim como se constitui em vitória econômica para uma mulher de nível educacional inferior casar com um educado e eminente negro brasileiro. Assim, miscigenação não tem a mesma conotação para os brasileiros, que para os anglo-saxões que nunca fecharam os olhos para a cor, como os portugueses tiveram de fazer. O Dr. Gilberto Freyre, brilhante sociólogo brasileiro, retrata os portugueses como "sem radicalismos, sem irremovíveis preconceitos e com espírito social mais moldável do que qualquer outro colonizador europeu". Embora sendo os primeiros traficantes, e "terríveis transportadores de escravos" diz Freyre que "foram os que melhor conseguiram confraternizar com as chamadas raças inferiores". Diferentemente dos severos, colarinho duro, peregrinos que vieram para a América do Norte, buscando liberdade religiosa e um novo lar, os alegres e aventureiros bandeirantes que foram para a América do Sul em busca de ouro, aceitaram ficar e coabitar com índias e, mais tarde, com africanas. " O ambiente onde a vida brasileira começou", escreve Freyre, "foi uma intoxicação sexual". Não apenas o solteiro explorador sucumbiu às tentações de índias nuas, que os tomaram por deuses e por padres. Em l538, após os índios haverem sabiamente provado serem incapazes para as lides rurais, os portugueses começaram a importar escravos africanos. Mais de uma negra, recorda o escritor, tornou-se rica e casou suas filhas com importantes brancos. Talvez a mais famosa mulata foi Chica da Silva, amante de um governador do século 16, que desperdiçou toda sua fortuna em vestidos e jóias, tendo construído para ela um lago onde colocou um navio, para que ela pudesse, assim, sentir-se como uma rainha. Segundo Dr. Freyre a decisão do governo de Pernambuco de obrigar o padres a abandonar as casas-grandes e viver em cabanas, atendidos por negras com mais de 40 anos de idade, fez com que milhares de mulatinhos depois, a Igreja concluísse que as negras acima de 40 anos ainda eram prolíficas. A escravidão é sempre cruel e a escravidão no Brasil não foi exceção. Como nos Estados Unidos houve levantes. O mais famoso mártir brasileiro, Tiradentes, liderou uma rebelião em 1792 e, como o nossso Nat Turner, foi preso e enforcado. Escravos fugitivos de Alagoas escaparam para a floresta de Palmeiras de Pernambuco e ali instalaram um estado negro que eles governaram por quase meio século. Suas técnicas agrícolas já consistiam no uso da diversificação de produtos. Os escravos brasileiros tiveram algumas vantagens não desfrutadas pelos sofridos primos do norte. Mulatos e negros eram administradores de plantações e capatazes. Uns poucos chegaram a ter terras e escravos. Havia funcionários públicos que protegiam e se preocupavam com seu bem estar, esta a mais importante diferença. Mas se destaca, também, quanto aos métodos de manumissão: No Brasil poderia ocorrer e se dava a compra, pelo próprio escravo, de sua liberdade. Nos Estados Unidos, especialmente após 1830, isto era impossível. No Brasil ele poderia trabalhar nos feriados a domingos, conseguindo com isto dinheiro para sua liberdade. Nem todos os que obtinham a liberdade escolhiam por ficar na terra onde estavam. Em torno a 1878, cerca de 6.000 retornaram para a África. Hoje milhares de descendentes de brasileiros repatriados vivem na Costa Oeste da África, inclusive a família de Sylvanus Olympo, falecido presidente do Togo. Nosso período de escravidão terminou após uma guerra civil que durou 4 anos, e na qual meio milhão de americanos morreram. A ferida ainda não foi cicatrizada. No Brasil o fim da escravidão se deu gradual e naturalmente, por decreto imperial, sob a pressão cada vez maior da opinião pública. Houve resistência dos que viviam do comércio de negros e, por parte, também, de padres, mas não houve violência. Em 1888 a Princesa Izabel, na ausência de seu pai, o Imperador Dom Pedro II, discretamente assinou um documento pondo em liberdade 600 mil negros. Dois terços de afro-brasileiros e seus descendentes , naquele tempo, já eram livres. Libertos, especialmente mulatos ilustres, filhos de fazendeiros e padres já haviam se tornado respeitáveis cidadãos. Numa mostra de total aceitação e exemplo a ser seguido, ela mesma dançou uma quadrilha, num baile elegante da corte, com o pai de um amigo seu, André Rebouças, um brilhante engenheiro negro. Os mais desafortunados e mais escuros brasileiros ainda não escaparam do estigma da servidão. Liberta e abandonada uma grande maioria se encontra no degrau mais baixo da escala econômica e ao pé da hierarquia social. O Movimento Cultural Negro, de Belo Horizonte, ainda aguarda 4 milhões de cruzeiros o governo prometeu a uma Associação de Emancipação.

FORTE INFLUÊNCIA AFRICANA.
A condição prévia de servidão pode ser usada contra os filhos de africanos, mas a influência da África na cultura brasileira é aclamada como a segunda mais importante (os escritores Vianna Moog e Euclides da Cunha, que afirmam estar em primeiro lugar a influência indígena), superada, apenas, pela portuguesa. A mesma ambivalência faz brasileiros sentirem-se envergonhados de serem proclamados como " país de cor", mesmo que expresse orgulho por seu sangue misto. Ao negro, os brasileiros devem seu sentimentalismo. Aquilo que o sociólogo Erico Verissimo chama de "simpatia" Ele disse quando o visitei em sua casa, em Porto Alegre que a combinação do imigrante português com o africano gerou um tipo de homem brasileiro que prefere, mesmo pobre, ser bem quisto do que rico e odiado. Com posição mais crítica do que com autoridade há os que defendem que um pé na senzala é um anátema. O Dr. Freyre credita à miscigenação a maior razão para a vitalidade brasileira; por salvar a nação de um choque racial e de classe. Uma edição especial do Jornal da Bahia, publicado em 1962 colabora a assertiva de Freyre: " Em grande parte afirma o jornal, o Brasil se encontra em débito para com a África pela maior contribuição que deu para a filosofia e política contemporânea: funciona como uma real democracia. A influência africana é forte e os negros são mais numerosos no estado da Bahia, que, por dois séculos, foi o mais importante porto de entrada de escravos no país. Em Salvador, cidade de dois níveis, a imagem africana está presente de muitas maneiras, especialmente no candomblé, uma reminiscência das religiões da Costa Oeste da África, com fortes tons católicos, também misturado com motivos indígenas. Os portugueses tentaram apagar a religiosidade dos escravos, mas estes rebatizaram suas divindades, os orixás, com nomes de santos da Igreja Católica. Iemanjá, Rainha das Águas, tornou-se a Virgem Maria; Omolu, tornou-se Lázaro; Oxóssi, o caçador, tornou-se São Jorge; Exu, o deus do mal, não tem um santo à sua frente. O candomblé, que comemora e celebra os feitos de ancestrais distantes, tem muitos ritos que são secretos. Pode-se freqüentar alguns no Rio de Janeiro, pois são abertos para o público. O que visitei, fui com uma pessoa que me conduziu, dirigindo por ruas estreitas e cheias de curvas, marcada com três velas acesas em diversos pontos do caminho. Ao pé da montanha ele estacionou o carro e subimos um caminho praticamente perpendicular, com degraus sujos que conduziam a um bem iluminado anfiteatro. Num encrave que formava um palco, havia um touro amarrado a uma árvore. Um carneiro negro se encontrava próximo e, bem mais distante, podia-se ver um altar com velas flamejantes. Juntei-me ao grupo no palco. Gradualmente dançarinos descalços começaram a chegar. Mulheres jovens que vestiam saias longas, que encobriam brancas pantalõnas. Houve destaque para uma dupla de jovens, que vestiam também longas roupas brancas. A música se iniciou, mas eles não dançaram juntos. Curioso é que até mesmo a audiência estava separada por sexos. O pai de santo, ou líder, era um homem muito preto, com espessos cabelos negros, bem como uma pesada barba. Também vestido de branco ele penetrou no círculo, onde jaziam o carneiro e dançavam os jovens vestindo branco. Carregava uma espada, que usou para desferir precisas estocadas nos que participavam do ato. Um por um começaram a mover-se convulsivamente , emitindo gritos como os de Ogã, o espírito guerreiro que entrara em seus corpos.

BRANCOS NO CANDOMBLÉ.
Aqui, nos Estados Unidos, os rituais negros somente atraem alguns fanáticos. No Brasil, todavia, deles participam todas as raças e classes econômicas, sejam chamados de candomblé, na Bahia, macumba, no Rio de Janeiro, xangô, em Recife ou catimba, no vasto Nordeste. Alguns especialistas, de outra parte, afirmam que as religiões afro-brasileiras são mais fortes em regiões com populações predominantemente brancas, do que onde há grandes contingentes de negros. Em Salvador o autor Jorge Amado e o artista Hector Bernabó Carybe, por exemplo, são ogãs de um centro de xangô, de Maria Bibiana do Espírito Santo. Um ogã é um influente do centro, contribuindo em dinheiro e servindo como intermediário entre ele e o mundo exterior. Foi Carybe quem conduziu o fotógrafo Paulo Muniz e eu à casa da senhora que preside uma comunidade com 500 seguidores, metade dos quais brancos. Eu esperei encontrá-la em comunicação com os deuses. O que vi foi uma senhora saudável, com jeito africano, sentada num canto de sua modesta sala de estar, assistindo com atenção ao Zorro, na televisão. Após satisfazer sua curiosidade a meu respeito, ela informou que seu trajes típicos haviam sido guardados, até o próximo carnaval. Carybe gentilmente a persuadiu para que posasse para fotografias vestindo os trajes de seu deus favorito. Ao invés de desaparecer, o candomblé está crescendo, especialmente entre os trabalhadores de Mataripe, assegurou-me o professor Vivaldo Costa Lima (do Instituto Afro-Oriental), enquanto descíamos de elevador para a Cidade Baixa. No mercado, encontramos uma negra velha, o que fez o professor desmanchar-se em carinho e gentileza para com a idosa, chamando-a de maezinha. Na parte fronteira do mercado, o professor mostrou-me artigos usados para os ritos de louvação aos deuses, bem como de alimentação, usados nos ritos do candomblé. Fomos, também, no mercado, ao famoso restaurante Maria de São Pedro, especializado em cozinha afro-brasileira. Outro remanescente da terra-mãe é a capoeira. Numa academia de capoeira assisti demonstração do outrora jogo mortal, que se transformou numa eletrizante dança. Em tempos colônias os escravos não tinham acesso a armas de fogo. Colocavam, assim, laminas de aço entre os dedos dos pés e, nessa dança em que há quase que exclusivamente uso dos pés, lutavam até a morte, cortando os adversários em pedaços.

CARNAVAL NO RECIFE.
O carnaval brasileiro, outro exemplo da influência africana é o maior, mais extravagante e possivelmente o mais ruidoso carnaval em todo o mundo. O do Rio é reconhecido como o mais espetacular. O de Recife, dizem, é o menos comercial, mais autêntico. Eu visitei duas escolas de samba do Rio de Janeiro e fiquei encantada com os preparativos que conduziam a um colorido clímax. Essas escolas, maciçamente negras, escolhiam suas rainhas e milhares de dançarinos que participarão do desfile. Encontram-se, nos participantes, desde senhoras em avançada idade até bem tenras meninas e meninos que dançam e se agitam pela noite adentro. A freqüentemente campeã, Academia do Salgueiro, estava vestida em trajes de desfile quando eu e um grupo de amigos brasileiros lá chegamos. Havia, em meio a um mar de vermelho e branco, muitos participantes de cor branca. Também se encontravam o Rei Momo e a rainha Izabel Valença, uma bonita mulata. A banda que tocava conseguia fazer o milagre de, a dados momentos, tocar mais rápido e mais alto, fazendo com que os participantes ao invés de marchar, passassem a fazer evoluções, cada um seguindo sua própria inspiração. Alguns dias após, ao participar do carnaval do Recife, milhas e milhas mais além, deparei-me com uma festa de quatro noites e quatro dias sem cessar. Encontrei dezenas de jipes sem tolda e sem as portas laterais, que deslocavam, em impressionante cortejo, cheio de jovens com fantasias e mascaras. Os que podiam gastar algo entre 25 e 40 dólares participavam de bailes em hotéis em centros cívicos. Dois fatos porém destoaram: a ausência quase completa de negros nos desfiles motorizados e o hábito desagradável de atirar água, ou sacos de farinha, o que era pior, em qualquer pessoa, desde que ao alcance. Pouco negros, me informaram, poderia ter acesso a um jipe; os raros encontrados o faziam em veículo de algum amigo.

AMERICANOS NO BRASIL.
O porteiro "escravo" no café carioca "Sambo", cartazes anunciando um ruidoso carnaval ou uma cerveja denominada "Negra", são coisas desagradáveis para o comum americano negro; mas, existem americanos residentes no Brasil para os quais tais símbolos podem ter valor sentimental. Eles são os descendentes de fazendeiros que imigraram das terras de Dixie após o término da Guerra de Secessão. Pois, para saber o estado de três gerações de sulistas eu fiz uma viagem de 162 quilômetros, de São Paulo até a cidade de Americana, a colônia original. De acordo com a lista telefônica local, 26 famílias ali se estabeleceram em 1865. A cidade tem agora uma população de 39.000 almas. Encontrei lá o Dr. Jim Jones um historiador vinculado a FDA, Fraternidade dos Descendentes de Americanos. Com um sotaque sulista, influenciado pelo português, com surpresa ouvi uma senhora de meia idade, gentilmente convidar-me para conversarmos em sua casa. Ela é descendente de Calvin McKnight, um texano e Dr. Jones é o bisneto do coronel William Norris, um filho do Alabama que deu os primeiros passos para a formação da colônia. "Estamos espalhados por todo o país agora", disse calmamente. Restam aqui apenas uns 30 de nós. Abrimos a igreja, cada três meses para um encontro social, mas, no 4 de Julho, 150 retornam para confraternizarmos. A igreja em estilo clássico e um museu permanecem no local desde a formação da colônia. Tem-se a impressão de que, ao chegar, a primeira atitude dos locais foi fazê-los vítima do preconceito: não lhe era permitido enterrar seus mortos no cemitério católico, assim tiveram que edificar a igreja protestante, com um largo espaço para as sepulturas. Eles tiveram escravos e dedicaram-se ao plantio do algodão e da cana de açúcar. O protestantismo foi uma de sua contribuições para o Brasil. Eles trouxeram professores dos Estados Unidos e introduziram novos métodos de plantio. Foram dificuldades econômicas que fizeram sulistas migrarem para o Brasil e não a abolição da escravatura no pós guerra. "Eles vieram para aqui para melhorar suas vidas; para alcançar o mesmo padrão que desfrutavam em casa antes da guerra. Ao contrário, todavia, encontraram um novo estilo de vida: o estilo brasileiro, disse o casal Jones. Viver entre dois mundos pode ser algo confuso para certas pessoas, mas não para os Jones. Ele faz as contas em inglês, ela reza em português e no jantar de domingo comem galinha frita brasileira ao estilo sulista. "Me sinto mais perto dos americanos do que dos brasileiros, embora seja bem brasileira" ela confessou: "não sei bem explicar isto, mas há um diferença". Em 1951 eles visitaram a "grande América" pela primeira vez. "NóÑ somos cidadãos brasileiros", disseram, " mas aquilo deu-nos a sensação de estar voltando para casa". Seu maior choque foi "ouvir negros falando inglês". A senhora Jones não estava a par dos problemas raciais nos Estados Unidos, assim como disse ignorar tais problemas também no Brasil. Escrevendo, agora, um livro a respeito da FDA ela não se sente segura quanto à questão racial e o quanto deve enfocar disto no livro. O casal Jones aprova a atuação de Martin Luther King e diz que a condição dos negros deve ser melhorada. Ponderou, entretanto, que se forçarem muito haverá de se formar resistência. Eles não têm amigos negros em Americana. "Nenhum deles se encontra em nosso nível cultural", ele explicaram. Existe um negro advogado, Dr. Jones recordou. " Eles procuraram bastar-se a si mesmos, disse, sentem-se felizes desta maneira", e acrescentou: "O mesmo poderia ocorrer nos Estados Unidos, se os negros fossem também deixados à sua conta". Um dos primeiros negros a migrar dos Estados Unidos para o Brasil foi Frank McMurray, um professor e carteiro do Arcansas que leu a respeito da ausência de preconceito nesse país. Ele chegou um 1919, trabalhou por seis meses e então mandou buscar sua mulher e três filhos. O armazém que ele manteve até sua morte hoje é uma casa de estofados, ainda da família. Dez anos após os McMurray se mudarem para o Rio outro empregado dos correios, Raleigh Lambert, com sua esposa Carrie, chegou de Chicago. Lambert trabalhou 36 anos com a companhia telefônica tendo ido, literalmente, do topo do poste até a mais alta função hierárquica, como supervisor. Disse que, como pessoa, não sentiu qualquer preconceito, mas garantiu que ele existe, e o dimensiona da seguinte maneira: " Digamos, por exemplo, que o racismo atinge 80 numa escala de intensidade na América do Sul e 20 graus no Brasil. Vamos dar um credito à maioria dos brasileiros por manter esta intensidade em apenas 20 graus, por mantê-los aí e, as vezes, conseguir marcas melhores. Vamos dar, da mesma forma, um credito de gratidão à maioria dos cidadãos americanos por fazer com que as coisas estejam melhorando cada vez mais". Talvez o negro americano mais conhecido, residente no Brasil, é Booker Pittman, neto do educador Booker T. Washington. Pittman veio para o Brasil em 1936 com uma banda de jazz, que fazia tournée pela América do Sul. Sumiu, por muitos anos, pelo interior do país. Recentemente fez vigoroso ressurgimento, acompanhado por sua filha, Eliana, linda mulata, cantora e dançarina. Presentemente ambos se encontram numa gira pelos Estados Unidos. Trinta anos passados Jimmy Hill, de Evanston, Illionois, mecânico de automóveis, decidiu mover-se para o mais longe possível do frio e da discriminação racial. No Brasil encontrou ambos. Trabalhou no nordeste como técnico em refrigeração para a General Electric por 4 anos, para, após, fixar residência em Salvador, onde montou seu próprio negócio de conserto de refrigeradores. Hill retornou ao país, nove anos atrás para casar sua filha caçula. "Eu quase morri congelado", disse enquanto bebericava um copo de guaraná em seu apartamento sobre a loja. Disse que nunca mais reclamaria do calor. A família, uma jovem mãe brasileira e suas duas filhas, tem uma casa na Ilha de Itaparica, onde passam os fins de semana banhando-se ao sol. Ele, quando não está ocupado com suas abelhas as acompanha na ilha. A respeito das abelhas ele recorda que, muito anos atrás, quando sofria de reumatismo leu uma reportagem na revista Time abordando o fato de que as pessoas que trabalham com abelhas não sofrerem de reumatismo. Ele, então, comprou abelhas, passou delas a se ocupar e ficou curado. Hoje, um homem atarracado, de 68 anos, pele queimada, Jimmy é um dínamo de energia. Ele pretende ficar no Brasil, mas como outros americanos expatriados com quem falei, guarda sua cidadania norte-americana. E, como os outros também, mantém-se informado sobre as rápidas mudanças que estão ocorrendo no cenário de seu país, mais do que os brasileiros. Enquanto eu estive lá, o Alabama manteve-se nas manchetes dos jornais brasileiros. Fotografias de policiais e cães de caça, tratamento desumano. Porém, nenhuma linha a respeito dos avanços conseguidos. Apareciam como bons homens na imprensa brasileira os falecidos John F. Kennedy e Dr Martin Luther King. Nat (King) Cole faleceu enquanto eu estava lá. Várias mensagens a mim entregues por seus admiradores jamais lhe foram entregues. No país inteiro pessoas lembravam-se de Nat e tocavam seus discos. O nome de Dr. King se encontrava solidamente ligada a esperança da causa dos negros. Falava-se nele com respeito e admiração. Mas a memória do ex-presidente Kennedy , o novo Abraham Lincoln se encontrava tão vivida no Brasil quanto nos Estados Unidos. Um monumento em sua memória foi erguido na cosmopolita São Paulo. Um ginásio foi batizado em sua homenagem em Americana. Um obelisco de quase 30 metros foi dedicado a ele, em Vinhedo, uma cidade viticultora. "Todos os brasileiros admiraram sua firmeza na questão dos direitos civis" disse Paulo Trineu,secretário do prefeito de Vinhedo, que sugeriu a homenagem e, também, coletou fundos para sua construção." A posição assumida por Kennedy quanto aos direitos civis ensejou a virada do destino na questão do negro e sua luta pela igualdade", arrematou o esbelto, impecavelmente vestido, homem cheio de emoção." Assim, teria de ser algo grandioso para homenageá-lo. O obelisco é cortado em seu topo para retratar o prematuro fim de sua carreira", concluiu Trineu. Mais tarde, num hotel do Recife, uma empregada tentou dizer-me algo, porém não conseguimos um ponto comum, face aos limites de meu português e do inglês dela. Em desespero ela então exclamou mais de uma vez Kennedy e dramatizou tristeza. Desferiu uma torrente de palavras e desmanchou-se em lágrimas.Quebrou-se, assim, a barreira da linguagem. Nos importamos com todos os povos que sofrem tirania, disse-me um homem ," e isto concerne aos povos de Angola". A questão Angola era um assunto tabu. Quase ninguém se dispunha a falar nisto e assumir o que dizia. No demais, o negro brasileiro sempre expressou identidade com a causa negra em todo o mundo. "Eu sinto que o negro americano é meu irmão", disse-me o Dr. Terencio José Luz. "O Africano não tem tantos problemas, por isto não me ligo muito à sua causa". " O negro brasileiro não sente afinidade com as questões dos negros americano e africano", declarou professoralmente Alberto Guerreiro Ramos. "Eles podem ter simpatia racial, mas não identidade. Eles apóiam as novas nações africanas por identidade política com a luta de libertação" " Não tenho identidade em especial com o problema do negro americano, diferente daquela que teria com o problema de qualquer outro ser humano. "Walter Costa Porto, um profissional, declarou: " Tenho simpatia com o Dr. Luther King e seu movimento, mas não em especial por ser de cor. Se fosse branco eu sentiria o mesmo". Eu quase perdi o Prof. Affonso Romano de SAnt'Ana. Este charmoso, olhos cinzas, jovem professor foi tão correto que meus contatos levariam a não ter certeza se ele considerar-se-ia não branco. Quando eu disse que ele preferiria a "liberdade do Brasil à riqueza na América", eu achei que ele falava superficialmente. Quando ele referiu-se que aceitaria visitar aos Estados Unidos, eu sabia.Eu não estava preparada, todavia, para o que se seguiu: Ele havia publicado um poema sobre Medgar Evers, o mártir dos direitos cujo nome eu nunca havia ouvido, antes desta visita ao Brasil. Nessa noite um mensageiro trouxe a meu hotel uma apressada tradução do poema. Diz, em parte:

Soa nosso sino-alma
N'algum lugar do mundo é noite
e um negro jaz morto.
Ku Klux Klam-Alabam.

Ku Klux Klan-Aleluia.
Medo do racismo tipo americano expresso pelo jovem professor foi manifestado, em diferentes graus, por quase todos os negros ou mulatos com quem falei, especialmente aquela para quem a cor permitiu passar a desfrutar dos privilégios da classe dos brancos, mas que, nos Estados Unidos, por sua herança negra pouco importa quão infinitesimal seriam classificados como negros, com todas as limitações e humilhações que o tempo implica. O mulato Ary Silva, popular editor e vereador, sentou-se numa mesa vazia na redação de um diário paulista: " Sim -disse rindo -temo o preconceito de vocês. Se o negro americano tem de lutar por seus direitos, por que ir lá? E, apontando para seus colegas que se juntaram para ouvir sua entrevista, acrescentou: "Por que devo lutar por eles? São meus amigos. Não me entenda mal. Eu gosto dos Estados Unidos, mas o Brasil é ótimo, por que deveria sair daqui?" O deputado federal Nelson Carneiro põe a discriminação racial no topo da lista de equívocos dos Estados Unidos." Você tem problemas raciais principalmente porque não aceitam o casamento inter-racial". Um branco brasileiro tem outro conceito: Tão pronto ouviu o som de meu inglês, ele um homem grande e portador de imensa barba, aproximou-se de minha mesa num café e sentou-se. Perguntou, então: por que os negros americanos querem total cidadania? Por que desejam ser cem por cento americanos? Sentindo em minha face uma reação desfavorável ele riu e apresentou-se como um artista, e prosseguiu apresentando uma serie de razões para provar que os americanos não são boas pessoas: a maneira como tratam o Brasil; a interferência no Vietname, para citar poucos. Vocês, os negros, não estão olhando para o futuro. Por que desejam tanto se parte de algo que não serve? Levantou-se do mesmo jeito que sentara e partiu misteriosamente como havia chegado. Muitos brasileiros baseiam suas opiniões na questão racial nos Estados Unidos naquilo que leram em jornais ou assistiram na televisão. Outros, como um professor que viveu na California, tomou conhecimento em primeira mão. Dirigindo um carro certa feita em Berkeley junto com um amigo texano o professor diminuiu a marcha para evitar de atropelar uma mulher. " Por que você está diminuindo a marcha, por um negro?" Objetou o acompanhante. E adiantou: "De onde eu venho a gente arremete sobre eles." Ao que retrucou o brasileiro: " De onde eu venho não! Parou e, abrindo a porta do carro, sentenciou: "agora, por favor, saia". O mundo inteiro olha para os Estados Unidos e procura competir com eles, disse-me um amigo brasileiro. "Na medida em que melhorar a questão racial lá, a nossa também melhorará." Eu diria que é maior o número de brasileiros que gostam dos Estados Unidos do que o dos que desgostam do país, mas são muito críticos com relação à política racial e à intervenção em países estrangeiros. A anunciada, e desmentida algumas vezes, viagem do presidente Johnson nada fará para melhorar este quadro. Talvez uma rápida revisão por parte dos dois países de seu histórico e diferenças sociais e políticas, explique porque o Brasil com todos os ingredientes para ter um incêndio racial, não tem sequer o fogo. O brasileiro é, basicamente, um não violento. Assim, ele aboliu a escravidão sem conflito; mantém ilegal a pena de morte; proibe touradas e considera o suicídio, como a discriminação, um ato impatriótico. Até suas revoluções tem sido incruentas. A influência africana na cultura brasileira é considerada como um patrimônio; em oposição os brancos americanos dizem que os africanos não contribuíram em nada e que seus descendentes sequer tem uma clara ascendência sobre a origem do jazz. O termo negro, que em nosso país inclui pessoas que tenham, apenas, uma gota de sangue africano, não tem similar no Brasil. A mobilização social levou a um entendimento segundo o qual educação, cultura e dinheiro transcendem a cor, ainda que até um certo ponto. Diferentemente dos Estados Unidos, a discriminação de raça, ou de cor, como eles preferem chamar, é maior em meio a pequena classe alta. Empenho nacional em negar a existência de fanatismo elimina, da mesma forma, a presença de militância de parte da minoria mais atingida pelo processo discriminatório. A aceitação de um amplo contingente de mulatos desencoraja a estes unirem-se com os descontentes. Aceitação não tão ampla, todavia, que os acolha todos na elite. A este respeito move o Brasil rapidamente para tornar-se uma nação branca, afastando-se de um elemento racial que poderia vir a se tornar um problema: a amalgamação não apenas está operando, mas fazendo-o permanentemente. Nesse sentido, miscigenação é um desejado elemento de branqueamento. Assim, o Brasil, segregado pela cor, é integrado pelo interesse de uma total absorção. Para o negro não há problema. Mas se o Brasil escapa da questão racial, antes de que se insira numa situação racial, não será isto uma vitória vazia? A grande questão, e alguns pressionam por uma resposta, é que ocorrerá se eles não marcam uma data limite. Com seus grandes e inexplorados recursos naturais e com seu quente e vibrante povo, esse país seguramente prosperará. Quando isto ocorrer, a competição entre cidadãos escuros e claros seguramente causará fricção. Rumores a este respeito já se ouvem vindos do industrial São Paulo e do europeizado Sul. Já ocorre hoje na Inglaterra entre os trabalhadores brancos nativos e os que imigram para a ilha. Isto ocorreu na Argélia entre os franceses que são europeus e os que nasceram na África. Também tem ocorrido nos Estados Unidos. Amalgamação pode não ser a resposta mais completa para o problema racial, mas, tanto quanto se conhece, é a melhor. O surgimento, no Brasil, de um relevante problema racial seria, por certo superado, tanto pelo temperamento dos nacionais, quanto pela existência de legislação pertinente ao assunto, que puniria aqueles que viessem a violar o conceito brasileiro de justiça para todos.