FIGA, DA GUINÉ OU BAHIA?

José Luiz P. da Costa

Difícil é negar o fascínio das tradições espirituais africanas sobre os brasileiros em geral. Tentou-se, por muito tempo, e da forma como Jorge Amado, magistralmente, narra em sua "Tenda dos Milagres", reprimir as práticas religiosas de origem africana, sob os mais diversos pretextos. Quando um brasileiro viaja para o exterior - entenda-se, aqui, como exterior a Europa, América do Norte ou Ásia - não faltam amigos e colegas para arriscar o pedido, quase sempre sem os dólares correspondentes, para que venha de lá uma maravilha mecânica ou eletrônica. Quem sabe um reloginho digital, daqueles "made in Japan". Bom, mas quando sabem que a viagem é para a África, então a coisa diferente. Nada de pedir tais modernices.
A encomenda é feita num cantinho, em voz baixa, ao pé-do-ouvido, para que os outros não ouçam: traz de lá um colar ou pulseira; quem sabe uma figa-da-Guiné... mas. não esquece, bem incrementada! Assim, em cada viagem, levo quase sempre uma dezena de pedidos e recomendações, para que, das terras do "juju", do "vudum", da "kizinga", do "grigri", do "feti", do" irã", do "dju" e outros nomes, com práticas executadas por fantásticos marabus (o nome poderá ser outro), eu traga poderosos elementos capazes de proteger meus amigos e os amigos dos meus amigos, de muitos e terríveis males, especialmente o temível "olho grande", ou seja, aquele mal que ataca o nosso patrimônio! Pois um dos locais que tive o prazer de visitar e, que, vejo agora, muitos gaúchos, numa operação Rondon, também lá estarão, foi a Guiné Bissao. Aliás, o rapaz que trabalha em meu escritório e que cursa engenharia eletrônica na URGS, é natural de Guiné Bissao e não usa figa. Talvez não precise. Pois quando lá, perguntei para muita gente, de como conseguir uma figa. E nem havia o risco de má interpretação, porque lá falam o português. Tenho perguntado a muitos de meus amigos, em outras plagas africanas, sobre elementos mágicos ou milagrosos, capazes de atender aos pedidos que, reiteradamente, aqui me formulam. O insucesso cobre minha iniciativa nesta área, até agora. Tenho cuidado, nos cruzamentos das ruas de Gana, em especial, para ver se, pelo menos às sextas- feiras (já que aqui se praticam todos os dias), encontro algum despacho, num cruzamento. Nem precisa ser daqueles opulentos de outrora, com charutos grandes e, seguramente, de Havana; com balas, galinhas e muitas moedas, além da indefectível garrafa de cachaça. Não precisa tanto. Nada, até agora. Já pedi para amigos diletos tirarem a máscara de bons cristãos e, enfim, mostrar aquilo que, se tem no Brasil, necessariamente deve ter na origem. A negativa tem sido a tônica. Tudo isso que a gente vê na Bahia, lá no Haiti, ou, mesmo, nos morros de Porto Alegre, será que é invenção de brasileiros? Parece, sem querer afirmar, por ora, fora países como o Daomé e as zonas de florestas do Zaire, Angola e Guiné (a francesa) - nos países que tenho visitado, pela pressão dos missionários e colonizadores europeus, o rito religioso tornou-se algo verdadeiramente fechado, interior. Dele participam as pessoas do clã familiar. E ninguém mais, por melhor que seja a abordagem. Do contrário não seria normal que, em 4 anos de constantes viagens à África, não houvesse visto qualquer coisa do tipo. Houve, aqui e ali, pequenos vazamentos, ou seja, alguns amigos soltaram informações que levam a tal posicionamento. E a figa-da-Guiné? Participando de uma feira comercial em Gana, um banco americano, como promoção, estava entregando a seus amigos um belo trabalho em jacarandá da Bahia: uma figa... da Bahia. E com a explicação num cartão em Inglês: "é para dar sorte, assim acreditam no Brasil". Um universo de coisas sisudas tem marcado as páginas internacionais em falando de África. São os imensos problemas da África do Sul; a luta pela independência do Zimbabue (Rodésia); as dificuldades de Agostinho Neto, em Angola, para consolidar sua vitória. O abelheiro em que buliu Idi Amin, para desafiar, da forma que o fez, a Julius Nyerere, da Tanzânia. Assim, a coletânea de história que apresentei, buscou trazer exatamernte o outro lado: a brejeirice, o sorriso e sobretudo o jeitinho com o que a África muito bem nos brindou.