FAUSTO E A TRAGÉDIA DE UM ENTREPOSTO DE ESCRAVOS.

José Luiz P. da Costa

O Senegal enseja toda uma gama de pontos de interesse para quem deseja fazer turismo, em termos de África. Será, assim, fácil contratar uma empresa e realizar um legítimo safari, bem ao estilo dos filmes que estimularam a imaginação de muita gente. Com toda a segurança, as sete regiões do Senegal poderão ser visitadas, através das excelentes "auto routes", completamente asfaltadas. O turista conseguirá, mesmo, atingir a região de Casamanse, chegar ao parque Ziguinchor e constatar todas as espécies vivas que formam a variedade zoológica da África. Por outro lado a capital, Dacar, conta com, pelo menos, três hotéis de nível internacional: o Diarrama, o Terangá e o N'Gor. Ali estão apartamentos de sonho, piscinas com belas mulheres de "top less"; há o cassino, para quem aprecia o jogo e, noutro ângulo, o famoso mercado Sandagá, um dos muitos locais onde se pode encontrar, a preços baixos, o artesanato nativo. Dacar é uma metrópole de 750 mil habitantes, onde se falam muitas línguas, (francês, português, inglês e o nativo uolof) e onde, pela afabilidade do autóctone, todos costumam se sentir muito bem.

UMA PEQUENA ILHA

Apesar de todas essa oportunidades de turismo, nada ensejou tão profunda emoção quanto a visita que fizemos a uma pequena ilha, postada a 3 mil metros do porto de Dacar: a tristemente famosa Gorée. Ronaldo Batista, representante para a África do Oeste, da Câmara de Comércio Afro-Brasileira, praticamente vive na África e, em especial, em Dacar. Insiste em dizer que, apesar de seu espírito aberto e alegre de carioca, nunca foi, nem pretende ir à Gorée. E, em verdade, apesar da beleza cênica do passeio, um estirão de 25 minutos em barca, quando o Atlântico se abre, e atrás fica o imponente porto de Dacar. Não obstante o impacto que causa a chegada aquela formação vulcânica, com casa todas em cor ocre e telhados em vivo vermelho - a ilha de Gorée consegue tocar fundamente nossos sentimentos. Ali estão, de um lado, recordações de um mundo que aprendemos a achar bonito - os punhos de renda, os saraus, a beleza dos séculos, que antecedem ao atual. De outro, todo o estigma que bem demarca a casa de escravos, preservada, postada ali para ser visitada , como retrato de uma das mais terríveis iniciativas do homem. A Casa dos Escravos lá está, com uma pequena porta que se abre ao mar. Por ali passaram muitos milhares de homens, mulheres e crianças, apartados à força de suas famílias, de sua terra.

GORÉE E SUA HISTÓRIA

Certamente é o lugar mais impregnado de história de toda a Costa Oeste Africana. Tomada e retomada mais de uma dezena de vezes, essa pequena ilha viu sucederem-se ali portugueses, holandeses, ingleses e franceses. O primeiro europeu que aportou à ilha o fez em 1444. Era o capitão português Diniz Dias. Gorée tornou-se , em seguidas, a etapa escolhida na rota africana, graças à sua posição geográfica e à sua defesa fácil, além de excepcionais condições como ancoradouro. Passou a ser, em temos comerciais, o centro de controle da exploração comercial de todo o Oeste Africano. Assim, se aglomeravam ali negociantes de escravos, de ouro, couros, marfim, pimenta e goma. A tônica, entretanto, de sua atividade, foi a de entreposto de escravos. Era um importante pólo de um tráfico triangular. O comércio se fazia à base da troca em espécie. A África enviava produtos preciosos, como homens, marfim, peles e ouro, recebendo em troca, geralmente, produtos sem importância, como tecidos e quinquilharias. Não raramente, a troca se fazia em termos altamente lesivos, eis que voltava para o continente armas, bebidas alcoólicas etc. Em 1617, os holandeses adquiriram a ilha (de fato eles a receberam de um homem chamado Biram da Mel du Kayor). O nome Gorée é de origem holandesa: "Goed Reed", ou "a boa baía". Antes disto os portugueses a haviam chamado de "Palma" ou "Berseguiche", tirado do nome de um dos chefes autóctones da ilha. Mais tarde, Gorée, que os franceses tomaram em 1777 aos holandeses, foi ponto de conflito entre europeus e conheceu várias ocupações inglesas, antes de sua restituição à França em 1716, pelo tratado de Viena.
O PASSADO VIVO

Duas imagens de Gorée nos chegaram de formas especial. Recolhemos, primeiramente, de um menino de 12 anos, a história da ilha, desde tempos imemoriais até os dias da Segunda Guerra Mundial, vestígio da qual se pode encontrar, ainda hoje, num expressivo canhão com suas bocas de fogo voltadas para mar alto. O menino se parece com aqueles que se encontra nas ruas de Olinda, em Pernambuco, a contar a história da histórica cidade. O outro depoimento, carregado de afeto, e não foi dado em troca de qualquer favor, veio de uma anciã. Seguramente tem mais de 100 anos. Falou, num francês impregnado de termos em uolof, sobre os últimos dias da Gorée como entreposto de escravos. Contou histórias tristes de dias que ela mesma teme possam voltar. Foi o depoimento sentido de alguém que custava a entender que seu interlocutor descendia, seguramente, de alguém que ultrapassara aquela porta estreita, voltada para o mar. As tristes histórias evocam homens e mulheres que desesperadamente gemiam e rezavam para não serem afastados de seus filhos. De pessoas simples e comuns, cheias de medo de compartimentos escuros e com pouco ar. De pessoas criadas em amplos espaços, conduzidas em grilhões para celas infectadas. De mães, como as nossas, chorando os filhos que compulsoriamente tiveram de abandonar. Há, entre os nativos da ilha, uma compulsão que os obriga a transmitir, de pai para filho, toda uma história de sofrimentos e de angústias. No domingo que visitamos Gorée - um dia radiante de sol, predispondo a imaginação a momentos de enlevo, nunca de opressão - logo, após um passeio por suas pequenas ruas, chegamos a uma tenda de quinquilharias e artesanato nativo. Na parte dos fundos um homem, com suas longas vestes de muçulmano, passava a um grupo interessado de pequenos meninos além dos ensinamentos contidos no Alcorão, a tradição multisecular daquela pequena ilha. Simples é de se entender que, com quem quer que seja, filho da Gorée, perguntado sobre a ilha, sempre terá algo que contar. À parte o depoimento da velha ou o recital do menino, ou a tradição oral transmitida pelo mestre dominical, Gorée por si mesma fala. Basta olhar suas velhas casas, basta apanhar qualquer detalhe de sua paisagem, sentir seu passado de lutas, de abordagens de piratas e de traficantes. Ela faz com que, noutro enfoque, se possa desfrutar o charme nostálgico que emana de sua paisagem de cidade tropical do século XVIII. Numerosas ruínas acentuam essa impressão: a casa dos escravos, velhos canhões corroídos pela ferrugem, vestígios de pórticos, de fortes, de palácios com grandes arcadas. E bem ai no fim de cada rua estreita, está o mar. E cada rua conserva um nome límpido e pitoresco, num contraste violento com sua tradição de escravistas e de piratas. quase que a oposição natural de seus habitantes a sua própria e cotidiana ocupação. Caminha-se, assim, pela Rue Gourmet (o africano católico); a Rue Bambarra, a Rue des Batteries, o Cais des Bucanière, a Rue Dongeons ou, ainda, a Rue du Chevalier de Boufflers.
O ROMANTISMO

O Cavalheiro de Boufflers foi célebre governador da Ilha, e suas aventuras passaram de tempos a tempos. Autor de poesias leves, muito apreciadas, era também, membro da Academia Francesa. Aceitou o longínquo posto como exílio, mas que lhe garantia, pelo menos, recuperar a fortuna familiar que havia posto fora. Fez um romance que, também, ultrapassou os tempos, com Eléonore de Sabran. Impregnado de poesia, num recanto tão hostil, o romance correu o tempo, sendo revivido na época da Gorée alegre; no tempo dos elegantes "Signares" e das festas galantes do século XVIII. Nesse mesmo ângulo se pode ver na ilha o próprio espírito que norteava o relacionamento europeu-africano. Fez história a palavra "Signar", um verdadeiro título. A palavra vinha do português Senhora e servia para designar a "mulata" casada à moda do país. Isto é, uma reunião precariamente provisória, válida somente durante a estada do "esposo" europeu na ilha. Esse tipo de casamento, que era comum, dava lugar a todo um cerimonial e só deixou de se admitido em 1830, quando foi promulgado o Código Civil do Senegal. A mais célebre da "signares", foi Anna Pépin, filha de um rico negociante e que conseguiu fazer o antes referido cavalheiro de Boufflers esquecer o seu longínquo amor. As "signares" usavam belas trunfas de "madras" e andavam sempre acompanhadas de suas "raporey", jovens escravas cristãs e que usavam moedas de ouro em seu s cabelos trançados. Era este um verdadeiro sinal de exteriorização de riqueza, muito ao gosto da gente daquela época. O comportamento se assemelha , em muito, ao que se encontrava no Cabo Verde. Nas ruas de Dacar hoje se pode ver, com facilidade, uma expressiva massa de cabo-verdianos. São quase todos mulatos claros e não se integram, com perfeição, na comunidade eminentemente negra.

A CASA DOS ESCRAVOS

A casa dos escravos impressiona desde que, poucos instantes após deixar o porto, se inicia a visitar a ilha. Sobre arrecifes, à medida em que se vai aproximando, vêem-se poucas janelas e uma porta que se destaca em meio à edificação. É o portal por onde chegavam do continente levas de escravos e, por onde, após os contatos comerciais, os mesmos eram despachados para a América. Eram os "madeira de ébano", como chamavam aos escravos que partiam para o Novo Mundo. Sabe-se, perfeitamente que, de cada quatro seres enviados para além-mar, apenas um chegava com vida ao destino. Estima-se, também, que esta rota foi cumprida, pelo menos, por 100 milhões de homens e mulheres. O dano maior causado, porém, foi ao equilíbrio demográfico do continente. Apenas saíam da África os melhores, os mais vigorosos, os mais inteligentes. E, no contato com a gente que ainda vive ali, descendentes dos que conseguiram escapar ao tráfico, se sente uma densa atmosfera impregnada desse pesado sofrimento, mas, também, prenhe do fausto e da riqueza, esta irmã gêmea da dor. Falam, também, de pilhagens, incêndios, escravos empilhados em depósitos. Os mesmos que pude visitar. São pequenos catres onde não pude pôr na posição horizontal meus braços. Disseram-me que, ali, naquele mesmo local, se podia encontrar até 20 escravos amontoados. Numa outra sala, se pode contar na parede a marca do suporte para mais ou menos 200 grilhões. Tudo em Gorée, entreposto de escravos.