A DISTÂNCIA NÃO APAGA VELHOS TRAÇOS EM COMUM.

José Luiz P. da Costa

A leitura, nos idos da década de 60, de revistas dirigidas para a comunidade negra americana como "Ebony", "Our World e "Negro Digest", influenciou sobremodo minha atividade jornalística, fazendo-me publicar amplo material a respeito das tese que nasciam e floresciam à sombra da independência de jovens nações africanas e de seus líderes maiores, como Kwame Nkrumah, Patrice Lumumba, Jomo Kenyata, Léopold Sédar Senghor e outros. Teses que desabrocharam na beleza dos poemas à negritude, de Senghor, e no expressivo "marketing" do "Black is beautiful", lançado pelos americanos e que envolveu e empolgou comunidades negras do mundo inteiro, especialmente da África.

No início da década de 70, mais precisamente em maio de 1971, atendendo convite do Governo dos Estados Unidos, tive a oportunidade de, não apenas conhecer aquele país de forma extensa e intensa, já que foi um roteiro de 30 dias, cobrindo 12 Estados - mas sobremodo, mais do que a visão tecnicolorida de Nova York, da Disneylândia ou dos estúdios da Universal, garantiu-me exercitar, na prática, algumas das coisas que aquelas revistas exibiam: Em Nova Orleans, por exemplo, fui discriminado. Num bar deixaram de me atender - negro aqui não! Já na Carolina do Norte, quatro dias vivendo na casa de uma família negra, encrustrada numa comunidade negra, fiquei a respirar, pelos poros todos, os problemas, ainda latentes, da integração racial que o governo americano promovia naqueles dias. Não esqueço o fantástico sermão, ma missa dominical, quando o pastor, ao estilo dos negros americanos, verberava a discriminação racial, num candente discurso que tinha como contraponto a resposta, em coro, dos fiéis às suas indagações.

Já na metade da década atual se iniciava, sem que eu imaginasse a extensão, um caminho que virou rotina, mas que, sem que eu jamais assim programasse, ligaria todos os elos de minha vida: o caminho África.

Assim, em dezembro de 1974 integrei a equipe que participou, representando o Brasil, da I Feira Internacional de Dacar, no Senegal. E, desde então, devo ter cruzado por essa cidade, mais de duas dezenas de vezes; algumas ficando lá, noutras em direção ao interior da África, especialmente Gana e países da Costa Oeste.

Esta vivência de quase cinco anos com a África, sua gente, suas coisas, tem-me ensejado ver coisas interessantes: juntar e relacionar fatos comuns a nosso país e a nossos vizinhos do outro lado do Atlântico - mais do que isto, das terras de onde vieram tantos dos que contribuíram para a existência dessa nacionalidade tão distinta que é a brasileira.