ÁFRICA:
A EXPLOSÃO DOS CULTOS MILENARES.

José Luiz P. da Costa

A partir da década de sessenta registrou-se em países recém independentes da África um extraordinário renascimento espiritual. A volta aos cultos animistas é significativa, mas em nações da costa ocidental a religião muçulmana é quem reúne o maior número de adeptos. O africano, em geral, é profundamente religioso. A reverência feita, diariamente a Alá, quando homens se prostram pelas ruas, desligados por completo do mundo material que os cerca, faz evidenciar a religiosidade dessa gente. Hoje, no vasto continente, milhões de pessoas praticam com a mais ampla liberdade, tanto suas religiões ancestrais, como as que lhes foram legadas pelos colonizadores europeus. Intuitivamente, por certo, para lograr o êxito de preservar todo um tesouro religioso, passado oralmente, o africano fez um trabalho sobrehumano. É que o colonizador não apenas procurou impor seus valores religiosos, como, também, tentou fazer com que a religiosidade da terra fosse, pelo menos, atenuada. Foi, apenas, um processo de compressão. E, nos parece um exemplo eloqüente o testemunho que, ainda esta semana, nos dava Duro Ladipo, rei do Camdomblé, na Nigéria e que trouxe a Porto Alegre a primeira ópera africana. Duro Ladipo, aliás corroborando impressão externada pelo adido cultural da Nigéria, no Brasil, Antony Abiola Joseph, conta que, imediatamente após a independência de seu país, no início da década de 60, houve, praticamente, uma explosão em termos

de manifestações religiosas puras.
Deu-se, num processo crescente de liberdade, o reencontro, às abertas, com crenças milenares, que não chegaram a morrer, mas passaram um longo período de hibernação, ou de prática clandestina. Duro Ladipo, iniciou esse movimento de valorização da cultura religiosa na Nigéria, seu país. Filho de pastor, Ladipo trocou o tradicional órgão que acompanha as cerimônias por tambores, nos tempos protestantes. Conseguiu fazer o mesmo, num processo normal de evolução, nas igrejas católicas. Esse seu trabalho representou, decorridos que são dez anos, o outorga de um troféu oficial, de parte do governo da Nigéria, que ele usa e faz valer: é o Rei do Camdomblé. E se aqui não soa com muita expressão o título, lá representa altíssima honraria nobiliárquica.

A RELIGIÃO NO SENEGAL

As considerações que se seguem são fruto da observação de quem estava preocupado e curioso com a questão religiosa no Senegal, nosso companheiro de viagem Carlos Marcelino Santos, filho do deputado Carlos Santos e delegado regional da Câmara de Comércio Afro-brasileira. "O povo senegalês - afirma ele - como de resto me parece que toda a população da África negra é extremamente religioso. Eles não aceitam a idéia de que possa existir um ateu sequer, no mundo. Baseados em dados estatísticos, buscados em órgãos oficiais de Dacar podemos dizer que o povo daquele país se divide em Muçulmanos (80%), Animistas (10%) e Cristãos (10%). Quanto aos cristãos tivemos a oportunidade de visitar a Casa Paroquial da catedral de Dacar e sentir de perto o seu trabalho. Na realidade, pelo menos a Igreja Católica romana está voltada para um plano de ação que visa a trazer para o seu rebanho, a curto prazo, um maior número de filhos. Sente-se, desde de logo, que a Igreja romana está tentando - e com certo sucesso - se adaptar à cultura africana e, com isso, vem obtendo vantagem sobre os outros grupos religiosos. O clero romano do Senegal composto na sua grande maioria de sacerdotes jovens (o arcebispo de Dacar tem 43 anos de idade), cultos e virtuosos, conseguiu - talvez por ser em número relativamente pequeno - trabalhar com uma unidade invejável. Para o sucesso, a estratégia consiste em não tentar desfazer, gratuitamente os arraigados conceitos de espiritualidade que, de pai para filho, através de centenas de anos, o africano com orgulho cultiva. Ao contrário, na base dessa espiritualidade nativa, a Igreja busca assentar sua filosofia cristã. Não obstante, o clero senegalês está plenamente consciente das dificuldades que enfrenta e que, por certo, ainda por algum tempo vai enfrentar.

FEITIÇO E FEITICISTAS

Entre as principais dificuldades a serem enfrentadas, estão os tradicionais ritos feiticistas, agora amplamente chamados de "religiões africanas". em breve apanhado, se pode dizer que o Senegal está dividido em cinco grupos étnicos. Essas etnias, afinal, são a resultante das principais tribos nativas já tradicionalmente radicadas naquela área, e isto muitíssimo antes da tentativa e posterior sucesso, da colonização portuguesa da África Ocidental, ocorrida no século XV. Contribuíram, assim, para a formação da etnia senegalesa o Uolof, o Fulvai, o Tucolor, o Mandingo e o Sererer. Este último grupo, o Sererer, mostrou-se, no decorrer do tempo, o mais afeito à cultura européia, distanciando-se, em conseqüência, da sua própria cultura. Não se considere, porém, nessa afirmativa, a idéia de fuga às raízes. O Sererer é consciente e orgulhoso da sua condição de senegalês, mas extravasa essa consciência o orgulho para um âmbito maior, ou seja, o de ser negro africano. Pois é exatamente nesse grupo que a Igreja Católica possui a grande maioria de seus seguidores. A mais alta ilustração que se pode dar quanto a essa observação é a de que o presidente da República do Senegal, o poeta Léopold Sédar Senghor, o mais ilustre e autêntico Sererer da atualidade, é hoje, incontestavelmente o mais conceituado líder africano, afora o prestígio e respeito que desfruta no mundo como autor e condutor da filosofia da "Negritude" Já o Uolof, o mais representativo dos grupos, na sua maioria professa a religião muçulmana. São os árabes responsáveis pelo estabelecimento das doutrinas de Maomé no continente negro. Ao Senegal, o Alcorão foi levado pelos Fulanis, através das margens dos rios Faleme e Casamanse. E tão intensa foi a divulgação maometana em território senegalês, que no século XVIII houve tentativas de estabelecer o islamismo em toda a África, calcadas no trabalho dos Achantis, outra tribo africana, que fundando povoações naquela área, indiscriminadamente dava asilo aos escravos fugitivos, condicionando, contudo, ao asilado, sua conversão às doutrinas do Alcorão. Quanto ao Tucolor, o Fulavi e, especialmente, o Mandingo, se atém quase que exclusivamente aos ritos feiticistas tradicionais. Em plena Feira de Dacar, em local previamente designado, diariamente se apresentava um conjunto folclórico do Senegal e, por duas oportunidades assistimos homens e mulheres "recebendo santo" e invocando a proteção de "Xangô", "Ogum", "Iansã", "Oxalá" e outras entidades da mitologia africana. O povo senegalês é altamente supersticioso e essa linha de ser tem como aparo sua religiosidade. Dificilmente se encontrará quem não porte um "patuá" ou "amuleto", que tanto pode estar colocado no pescoço, como no braço (um pouco acima do cotovelo) ou na perna (um pouco abaixo do joelho). A prática da religião africana, no Senegal, no entanto, não é feita abertamente. Os adivinhos e os feiticistas exercem sua atividade, não clandestinamente, mas cercada de uma ambiência permanentemente policiada por seus membros, de sorte que não é com facilidade que o grande público, especialmente o estrangeiro, poder chegar até a presença de seus grandes chefes. Há, assim, uma diferença entre este posicionamento e aquele que afirma Duro Ladipo. Talvez isto ocorra já a partir do fato de que, na Nigéria é seu presidente um cultor das religiões de seus ancestrais.

ALA ANTES DE TUDO

Contudo, o centro religioso polarizador é sem dúvidas o muçulmanismo. Tanto que a qualquer dia é possível, em horas certas, encontrar nas ruas de Dacar, mesmo nas principais ou locais de trabalho, homens ajoelhados, fazendo suas orações. Muitos deles carregam sob o braço uma pequena esteira. No momento certo, colocam-na no solo e iniciam, ajoelhados ou deitados a reverenciar Alá. É um ritual que se estende por 10 a 15 minutos e que é cumprido com uma incrível consciência de obrigação. Desligam-se, por completo, do mundo exterior. Na nossa curiosa irreverência, conseguimos notar que os demais ignoram os que estão a rezar. É um ato de rotina. Na sexta-feira, entretanto, às 14 horas, se faz mister uma visita (é impossível entrar, tantos são os que aparecem para rezar) a qualquer das mesquitas. Espetáculo de rara singeleza é verem-se milhares de homens (mulheres não entram na mesquita e, em muitas das divisões do islamismo, sequer podem rezar; não entram no cemitério, a não ser quando mortas), espalhados pelas ruas que circundam as mesquitas, rezando para Alá. Recordo que certo dia tentávamos passar um telex para o brasil. Na estação central o, operador da máquina era um muçulmano. esperávamos, já há tempo, que se fizesse completo o circuito via Paris. Portanto, qualquer interrupção poderia, eventualmente, complicar ainda mais. Às 18 horas, o operador apertou certo botão na máquina que a travou. Foi a um canto de onde retirou uma pequena esteira de palha. Sem pressa, fez suas rezas. Voltou ao fim para seu lugar de trabalho e religou a máquina. Essa formação muçulmanas, aliada à própria estrutura tribal, ou da grande família, dá aos senegaleses, em geral, um profundo respeito pelos mais velhos. Em casa, à mesa, menor de 26 anos não tem assento e não participa da conversa dos maiores. É, para eles, uma espécie de assistente, mesmo que irmão. Não se encontra jamais um moço a discutir ordens de um mais velho. Esse condicionamento nos assegurou, aos brasileiros da missão, a proteção de um velho africano, surdo-mudo, que ficava à porta do hotel, para "quebrar galhos". Ele passou a ser nosso amigo e defensor contra os ataques dos vendedores de quinquilharias. Bastava um olhar mais zangado ou uma reprimenda a seu modo, para que os vendedores desaparecessem. No Senegal, os alunos que entram para o primário ficam desde logo sabendo que "os africanos são profundamente religiosos. A religião tradicional é o "animisme" (feticismo) e todas as coisas que existem sobre a terra se devem à natureza, a um ser superior". Mas aprendem, também, que a "máscara em madeira, a estátua, a dança, a música, a pintura, etc., são formas de arte. E na África, a arte é sempre inspirada pela religião. Por exemplo, as máscaras são confeccionadas e utilizadas para as festas religiosas dos feiticistas. Os africanos amam as danças e os cânticos que, com seu ritmo, lhes permitem uma vida muitíssimo intensa. Assim a arte , como a religião, permite ao africano exprimir sua alegria, suas tristezas e suas esperanças. São assim, a arte e a religião expressões da sociedade" (História do Senegal, curso elementar, 1o. ano)
DRAMA AFRICANO

O testemunho vivo das afirmativas acima foi constatado em nossa cidade quando da apresentação da ópera "Xangô - Oba Koso", de Duro Ladipo. Muito mais do que simples manifestação artística, a encenação da peça era um ritual feiticista africano. Procurando um contato com Ladipo, para melhor poder conversar sobre seu trabalho e a sua vida, perguntei se poderia vê-lo na tarde de terça-feira, horas antes do espetáculo. Foi taxativo informando que, após o almoço, não tinha condições para saber como estaria, já que "não mais serei Ladipo; serei Xangô". ele falava cheio de confiança de que , a partir de um dado momento se transformaria no todo poderoso rei que, cansado das intrigas palacianas decidiu-se pelo suicídio. Foi para o céu e de lá passou a zelar pelo povo. Mas era um rei-deus muito arbitrário, pois não hesitava em mandar raios de fogo para queimar as casas de todos aqueles que ousassem dizer que o rei havia cometido suicídio. Ladipo, fora da peça, reunido com seus artistas, do naipe feminino, na maioria suas mulheres (tem 6 esposas),é verdadeiramente um rei. Todos os respeitam e o veneram. Basta apenas um olhar ou algumas palavras para que todos se calem de pronto. É o respeito revencial ao chefe, ao rei, ao mais velho. O temor de que fala sua peça - O Rei se enforca. Assim, ainda hoje, é a África. Uma perspectiva nova, baseada em antigos padrões que pouco mudaram, resistindo à avassaladora pressão dos dias de nossa civilização.