BOKASSA I EXPULSA O FILHO E SALVA A PELE.

José Luiz P. da Costa

Para a imprensa mundial foi, sem dúvidas, um dos mais saborosos pratos, o momento em que o então marechal Jean-Bedel Bokassa, presidente vitalício da pequena República Centro Africana, se decidiu por transformar sua jovem república num império e, por conseqüência, fazer-se o seu primeiro imperador. O que foi feito, em meio a grande pompa. O farto noticiário da época, ilustrado com impressivas reportagens coloridas na televisão; amplas fotografias em revistas ilustradas e copiosos telegramas nos jornais, naturalmente, como ocorre com quase tudo hoje em dia, foi consumido e caiu no esquecimento. Bokassa, com seu cetro e coroa de muitos milhões de dólares, voltou-se para os problemas do dia-a-dia de seu império com 622.984 km2; sua população sofrida, uma das mais pobres do mundo, de quase 3 milhões de habitantes, com uma renda per capita em torno a 180 dólares
(sensivelmente afetada pelas despesas de coroação) e suas questões internas; mazelas comuns às pequenas e grandes nações, mas que, no caso das pequenas, em nada afetam o quotidiano do resto do mundo. Mas eis que, há algumas semanas, volta o, agora, Imperador Bokassa I, à manchetes internacionais, desta feita por haver expulso seu filho e, naturalmente, sucessor, acusando-o de conspiração. Uma conspiração a mais ou a menos na África ou América Latina não é mais notícia. Portanto, o que fez Bokassa voltar a evidência foi o fato de o alvo ser o filho e, tal tipo de coisa, por aqui, entre a chamada cultura ocidental, pega muito mal. Imaginem, expulsar o próprio filho do país! Recordo que, em 14 de setembro de 1975, publicava, aqui no CORREIO DO POVO, artigo sob título "Histórias Africanas", onde, além de tecer comentários sobre a atualidade e passado africanos, me reportava a livro editado à época, "O Poder Africano", de Jean Ziégler (Difusão Européia do Livro). E, um dos temas enfocados se voltava, exatamente, para os antigos reinados da África Central, região geográfica que, se sabe, abriga o Zaire, o Ruanda, o Burundi, a República do Congo, o Gabão, a República dos Camarões, o Chade e a República Centro Africana, hoje , portanto, Império Centro Africano. Em nosso trabalho citado, transcrevíamos parte do livro referido, o que fazemos de novo a seguir: "Nesse universo de violência e de insana crueldade que, ainda poucos anos atrás constituiam os reinos da África Central, os mecanismos de sucessão eram presididos por uma regra elementar: o rei deve desaparecer assim que o príncipe herdeiro atinja a idade de homem. Esta regra é taxativa. E parece que ainda hoje o é. Dois exemplos: no tempo da tutela belga, Mutara, rei de Ruanda, convocou seus chefes em Bujumbura. Reuniu o último conselho nos jardins do hotel Paquidas: em seguida, assistido por seus pares, ingeriu o conteúdo de uma garrafa de cerveja envenenada. Morreu algumas horas mais tarde, algumas centenas de metros adiante, num leito de hospital em Bujumbura, sempre cercado por seus chefes silenciosos e impassíveis. Estes, a seguir, encaminharam-se para o palácio do governador a fim de lhe comunicar o suicídio do rei. Foi, então, enviado um telegrama à rainha-mãe, em Gitarama. Uma testemunha que se encontrava ao lado dela no momento da recepção da mensagem que comunicava a morte de seu filho, declarara que sua reação se resumiu às seguintes palavras: "Ele se decidiu, finalmente". "A mesma regra quase custou a vida do rei Mwambutsa IV, penúltimo rei do Burundi. Apesar de já haver o príncipe herdeiro Charles atingido a idade de dezenove anos, Mwambutsa recusou afastar-se. Uma parte do exército atacou seu palácio durante a noite de 28 para 29 de outubro de 1965. Mwambutsa escapou mas o príncipe Charles assumiu o poder alguns meses mais tarde". Por certo alguns sonhos devem ter atormentado o Imperador Bokassa I, fazendo-o recordar de históricas tradições de nações vizinhas e, mesmo da sua própria, ao tomar a decisão de expulsar o próprio filho . Poderia ter escolhido outro caminho, muito comum nesses mesmos reinados: um casamento em idade madura, que assegura o nascimento de um herdeiro temporão. Este seria indicado como sucessor, assegura mais tranqüilidade ao monarca. Mas, como parece não ter agido assim, preferiu a outra opção, ver-se livre do concorrente, o que chocou desprevenidos leitores das coisas da África.
Domingo, 9 de fevereiro de 1975.