Pequeno Roteiro na África Imensa — III

ABIDJAN, UMA FRANÇA TROPICAL.

Quando se comenta com experts em viagens pela África o projeto de visitar a Costa do Marfim, a primeira advertência tem endereço: o elevado padrão de vida em Abidjan, a capital do país. Por maior que seja a disponibilidade de dólares, o que geralmente não ocorre, uma diária de hotel de US$ 50,00 sem café da manhã, assusta. É verdade que esta é a taxa para solteiro do Hotel Ivoir, um dos mais luxuosos e modernos do mundo. O corpo principal do hotel é uma sólida e larga edificação de 14 andares. A seu lado, ligado por corredores internos, está uma monumental torre de 30 andares, com 500 apartamentos climatizados e outros confortos, inclusive televisão a cores, pois Abidjan conta com transmissões normais coloridas, no processo francês Secan. O hotel tem, ainda, um cassino em estilo africano, com cobertura em sapé, um lago artificial e porto para uma das lagunas que enfeitam Abidjan; supermercado, cinema (assisti Uma Noite em Casablanca, com os irmãos Marx, dublado em francês), piscina, heliporto, canchas de tênis e golfe, “sketing”, bolão e um salão de convenções para 2.000 pessoas. É certo que existem outros hotéis, como o Du Parc, na região do Plateau; o tradicional Grand Hotel, que foi sepultado por um imenso viaduto, com trevos de acesso e ligação a uma das várias pontes que cortam as lagunas de Abidjan. Mas estes e outros hotéis centrais têm suas diárias oscilando entre os 50 dólares do Ivoir e 35 dólares do Grand Hotel. Chegando-se, pois, no moderno aeroporto Port-Bouet — onde uma tentadora boutique vende artigos estrangeiros sem taxas aduaneiras, como em Manaus — seguindo-se, após, por largas avenidas, fartamente iluminadas e sendo despejado no hotel, conclui-se que, realmente, se está num país rico e organizado. As observações preliminares também confirmam a assertiva: embarquei num táxi e fui andar pela cidade, para uma tomada de posição. Após rodar por algum tempo, que não foi muito, o taxímetro marcava 5.000 francos CFA, ou mais ou menos 250 cruzeiros. Dois dias depois, preparando alguns itens para o almoço na residência de um brasileiro há bastante lá radicado, fomos a um supermercado. Durante todo o itinerário, enquanto empurrava o carrinho e ele escolhia os itens, foi lastimando o preço dos gêneros, com o que eu estava a concordar plenamente.

Dois Mundos.
A permanência em Abidjan, tendo-se tempo para observar alguma coisa, faz evidenciar a existência de dois universos, que embora se comunicando, estão à parte. No Plateau e em Crocody está o mundo dos estrangeiros. No Plateau os grandes edifícios e a administração do país. Ali as boutiques com artigos importados, especialmente da França. São lojas com os últimos sucessos de Adamo, Gilbert Becaud ou Charles Aznavour. Supermercados com vinhos, champanhas e produtos alimentícios chegados recentemente da França. Os grandes bancos, como o Banque Internationale Pour Le Commerce Et L’Industrie de La Côte D’Ivoire e o Banque Centrale Dês États De L’Afrique De L’Ouest, banco este que suporta a moeda corrente no país, o CFA (Comunidade Financeira Africana) e que também é moeda oficial no Senegal, Togo, Dahomey, Alto Volta, Niger, Chade, Congo, Gabão, República Centro Africano e Camarões. Também se prepara, para ali se alojar, o Banco Real, que está formando uma empresa multinacional e já tem em Abidjan um funcionário trabalhando na instalação do banco. Por sinal, este será o primeiro banco brasileiro na África, já que o Banco do Brasil ainda não instalou a sua agencia de Lagos, na Nigéria. Saindo-se do Plateau chega-se a Treichville, área comercial eminentemente africana, com um grande mercado do mesmo tipo encontrável em quase todos os países da África, com milhares de lojinhas, e de vida noturna ativíssima, sendo o primeiro bairro a ter implantado o sistema de numeração nas ruas. Nas ruas desse bairro encontram-se menos europeus do que no Plateau, mas ambos convivem e mantém comércio lado a lado. A reunião dos dois universos se dá em Crocody, bairro residencial de luxo, onde está também o Hotel Ivoir. Ali, ou em conjuntos residenciais, em casas à beira das lagoas, são encontrados africanos e europeus de alto padrão de vida. Também em Crocody estão as universidades e as embaixadas estrangeiras.

Estrangeiros.
A fisionomia eminentemente francesa do Plateau e do Crocody, o primeiro com seus cafés de beira-de-calçada, onde se pode tomar café (robusta) da Costa do Marfim, ou um “bière-pression”, ou “chopinho”, e, ainda, pelo vozerio à volta, sentir-se como em Paris — tem uma explicação: com uma população de 4.940.000 habitantes, destes o contingente de 1 milhão é integrado por estrangeiros permanentes. Destes, 35 mil são franceses. O país recebe, por estação, levas de 400 mil estrangeiros. Tais dados justificam o aspecto europeu do país, além do fato de até 7 de agosto de 1960 haver sido uma colônia francesa. O número mais expressivo de vôos que recebe o aeroporto de Abidjan se refere a freqüências européias. Para Paris tem-se avião todos os dias.

A Riqueza.
A Costa do Marfim, sem ser membro da OPEP, pois não tem petróleo, pode-se considerar como um país estável e econômica e financeiramente sólido. Para uma população que não chega aos 5 milhões, com um regime político estável: regime presidencial com Congresso Nacional. É titular do Executivo o médico Félix Houphouet-Boigny e o ministro da Defesa é um civil. O país produz café (277.372 t.); cacau (178.042 t.), bananas (145.000 t.), abacaxis in natura (51.643 t.) e industrializados (200.000 t.) arroz (350.000 t.), algodão (54.000 t.), óleo de palma (12.500 t.), coco (687.000 t.) in natura e industrializados (442.000 t.), seringais (15.200 t. de borracha), madeiras (5.183 m3 exportados), pescados (70.000 t. artesanal e 810 t. de camarões). Minerais, o único com expressão é o diamante: 299.300 quilates.

Presença Francesa.
A presença marcante da França na Costa do Marfim também pode ser sentida quando manuseados dados relativos ao comércio exterior. O percentual de vendas para a Costa do Marfim é o seguinte: França (44,2%), Estados Unidos (9%), Alemanha Federal (8%), Países Baixos (3,8%) e Itália (3,6%). Aparecem, também, em números menores, a China (Taiwan), Japão, Bélgica, Luxemburgo, Comunidade Econômica da África do Oeste, Reino Unido, Nigéria e Iraque. Os principais clientes são: França (25,8%), Estados Unidos (11,1%) e os demais que também constam como fornecedores. O Brasil, pode-se ver, não figura na lista. Porém, segundo informações colhidas na nossa embaixada, vem aumentando constantemente, o número de pedidos de informações sobre produtos brasileiros: a presença de empresários naquele país, bem como a iminente instalação de um banco brasileiro, além da chegada, não muito freqüente, nos portos de Abidjan e San Pedro, de produtos brasileiros, somam dados positivos no esforço brasileiro de conquista do mercado ivoriense. Convém registrar que uma das dificuldades para uma maior expansão das trocas, segundo, também, informações colhidas na embaixada, é a falta de freqüência de navios do Lloyd Brasileiro, não apenas para a Costa do Marfim, como para aquela região.

Democracia Ivoriense.
Félix Houphouet-Boigny é o presidente da República desde a independência do país, em 1960. Sua vida política se iniciou, após haver estudado, como outros chefes de Estado africanos, em Gorée, uma ilha ao largo do Senegal e território deste país — quando foi eleito deputado representante junto à Assembléia Constituinte francesa, em 1945. Junto com ele também estava Léopold Sédar Senghor, representando o Senegal. Foi reeleito para a Assembléia Nacional da França nos anos de 1951 e 1956. Com a chegada da independência, não apenas de seu país, mas de quase todas as antigas colônias francesas na África, numa viagem pelo Continente empreendida por Charles de Gaulle, foi editada a Constituição, que diz em seu artigo segundo: “A república da Costa do Marfim é una e indivisível, bem como democrática e social. Seu princípio é o governo do povo, para o povo e pelo povo”. A Assembléia Nacional é unicameral e conta com 100 representantes.

Conjurar Crises.
Com a tranqüilidade de contar com um volume de exportações da ordem de 190.856 milhões de CFA (cerca de US$ 0,005 por CFA) e importações montando 157.521 e orçamento equilibrado, a Costa do Marfim mantém mais de 1 milhão de alunos nos níveis primário e secundário, e possui modernas universidades, como a de Crocody, com um moderníssimo campus e, assim, está preocupada em conjurar as crises do futuro, tais como evitar uma queda do atual nível de vida e lutar contra a delinqüência urbana. Segundo a publicação “L’Année Politique Africaine”, da Societé Africaine D’Édition (Dacar-Senegal), está assim o momento do país: “A política ivoriense ao correr deste ano está ocupada sobretudo com as conseqüências da crise econômica mundial. Entretanto, a administração quotidiana do Estado não está sendo negligenciada. Pelo contrário, deu maior ênfase ao diálogo, que se tornou um estilo de ação da democracia ivoriense, ensejando a todos e cada um o direito de se manifestar a respeito do funcionamento das instituições. Não se importando se, com isto, criticar a aplicação da política governamental”. Quanto ao Exército o seguinte: “Se o desejo do Chefe de Estado é de fazer da região do Norte o celeiro da Costa do Marfim, ele queria transformar as Forças Armadas, não em executante, mas em associado do Poder. O Exército deve garantir primeiramente a segurança do país, mas como a Costa do Marfim está em paz com todos os seus vizinhos, os quadros das Forças Armadas se devem voltar para atividades mais pacíficas. Assim, muitos oficiais foram convidados a serem sub-prefeitos. Por outro lado, recente remanejamento ministerial permitiu a entrada no governo de novos jovens oficiais (coronel Duassenan, 35 anos, nomeado secretário de Estado do Interior; capitão-de-corveta Lamune Fadika, 32 anos, nomeado secretário de Estado da Marinha)”. Especificamente quanto à delinqüência urbana: “A nomeação ao posto de ministro de Estado do Sr. Mathieu Ekra, mostra a vontade de lutar contra a delinqüência urbana, em razão da expansão econômica e demográfica que conhece Abidjan”. Quanto ao desejo de manter o atual nível de vida: “o governo se volta para o mesmo lado que os demais países do Terceiro Mundo: reforçar sua infra-estrutura, com a melhoria de determinadas unidades fabris, bem como a execução de múltiplos projetos, ainda em estudos, tais como fábrica de papel, novos complexos açucareiros e um projeto de exploração em escala industrial de amoreiras”.

A Tradição.
A moldura, pois, do país parece sugerir uma imensa exceção no modelo africano de vida. Porém, em Treichville, ou noutros bairros como Adjamé, Marcory, Attiécoube, Koumassi ou Vridi, se pode encontrar as mulheres com seus trajes multicoloridos, carregando uma variedade incrível de objetos na cabeça e, muitas vezes, somando a isto um filho nas costas. Pode-se encontrar o povo simples, comendo iguarias com nomes diferentes, porém iguais aos acarajés, vatapás, cangerês — com o mesmo paladar e as mesmas pimentas de Gana, Nigéria, Senegal ou Bahia, Brasil.