Uma questão de respeito

 

 

Escolhi ao acaso um dos bancos, logo à entrada do avião, na viagem que se iniciaria em breve com destino a Johanesburgo, com escala na antiga Rodésia do Norte, agora Zâmbia. Estávamos no aeroporto de Harare, capital do recém independente Zimbábue, meses antes Rodésia, outrora Rodésia do Sul. Alojados mais alguns passageiros naquele compartimento da aeronave, foi dada entrada para os demais – um desfile multicolorido de homens e mulheres, especialmente estas, com seus trajes – individualidades nacionais no universo de estados-nações que, anos às centenas, foram moldando a região. Da mesma forma, notável a polifonia, nos linguajares, nas emissões muitas vezes musicais, de cada uma das falas daquelas pessoas com suas origens. A mais, a radical substituição de meios mais primitivos ou lerdos – semoventes atravessando matas e desertos, e barcas nos rios – pelo avião. Traziam aqueles passageiros uma profusão de produtos de comércio, algumas difíceis de serem acomodadas nos bagageiros sobre as cabeças da moderna aeronave.  

            Recordei-me, então, de uma dessas coincidências históricas: Meses atrás, vinha num vôo da British Airways, de Londres para a África do Sul, no meu caminho para Moçambique. Quando nos aproximávamos de Salisbury, capital da Rodésia, houve grande comoção a bordo, com champanha servida para quem quisesse. Seria um brinde pelo retorno dos aviões ingleses à colônia rebelde da Rodésia. Seu primeiro ministro, Ian Smith, havia, anos antes, declarado a independência da colônia, desafiando o império britânico. O imenso jumbo inglês fez um panorâmico sobrevôo à capital, mostrando campos de glorioso verdor e, uma cidade planejada e extremamente bem cuidada. Anos adiante, um presidente do Brasil estaria lá e diria “que nem parecia África!”. Disse, sim.  Pousamos em Salisbury, que pouco após se tornaria Harare, capital do Zimbábue.

            Passada a divagação, percebi que, quando parecia que tudo havia se acabado, que o avião estava enfim pronto para ter suas portas fechadas e seguir seu destino, sobrara apenas um assento vago. A cortina que separa as duas classes do avião se mantinha aberta, assim que espiei para trás e vi que estava completamente cheio – menos um assento.

            As jovens ebâneas aeromoças continuavam em sua azáfama, preparando tudo para o vôo iminente. A porta da cabine de comando, poucos passos à frente, se mantinha aberta e os dois pilotos africanos, com alvíssimas camisas brancas e divisas nos ombros, ajustavam numa prancheta as coisas de sua rotina.  Aparentemente, ninguém se impacientava com o fato de estarem acomodados e, entretanto, nada ocorrer quanto à partida do avião.

            Então, carregando seu peso e sua idade – teria pouco mais de sessenta anos – liderado por um despachante da companhia de aviação – avançou em direção às poltronas um monumento em ébano. Era tanto alto quanto gordo. Pelo menos assim eu o via, mirando-o do assento de minha poltrona. Trajava roupas européias, ou seja, calça, paletó e gravata, atada a uma camisa branca. Apenas desqualificava seu vestir ocidental a bengala esquisita que servia tanto de apoio para seu peso quanto sua idade, mas que o identificava como autoridade nalguma nação africana. Moveu-se pesadamente atrás do despachante que indicou o assento vago a meu lado – ao corredor. Eu estava à janela.

            Reconheci de imediato meu companheiro de viagem. Era Joshua Nkomo, co-líder da independência do Zimbábue.

            Ele sentou-se pesadamente. O despachante fez uma mesura e desapareceu, escada a baixo. Como que instantaneamente, uma jovem e bela atendente apareceu, na bandeja dois copos e uma garrafa de vinho espumante francês. Serviu-lhe com grande deferência e, isto feito, ofereceu-me a segunda taça, onde colocou da mesma bebida. Agradeci e fiz uma breve conjectura sobre a importância da proximidade.

            O avião, um Douglas MD 80, finalmente levantou vôo, enquanto bebericávamos do champanha. Levantaram as mesinhas à frente, mas nos deixaram com nossas taças. No silêncio que havia entre eu e o senhor a meu lado, passei a pensar em meu relacionamento com pessoas mais velhas. Assim, recordei de minha adolescência, em festas de família, ou no meu clube Marcílio Dias, sempre me via associado a alguém bem mais velho. Quando eu mesmo tornei-me um “mais velho”, compreendi os problemas que o choque de gerações vão causando, talvez fazendo os jovens associarem-nos, os tais “mais velhos”, a seus pais e suas restrições. Eu era um bom ouvido, para os velhinhos. E não foram poucos os resultados positivos que obtive, sem qualquer desejo preestabelecido, por esse comportamento.

            Então, este monumento vivo africano a meu lado, um provecto cidadão, seria diferente de outros, como por exemplo, Carlos Santos?

            Não! Não deveria ser. Arrisquei. “Good Morning!” Nkomo olhou-me surpreso, mas sua feição era simpática. Acrescentei, mesmo sem o “Good morning” esperado, em retorno. “Eu sou brasileiro, e o conheço pelos jornais”. Nkomo abriu um amplo sorriso, aquele riso bonachão que pessoas gordas comumente têm, e iniciou uma longa conversa comigo.

            Contou-me de sua origem, estudante numa universidade na África do Sul, tendo como colega o prisioneiro já famoso Nelson Mandela – a Universidade de Fort Hare, celeiro da juventude que expurgou o colonialismo de grande parte da África. Falou-me de seu empenho em libertar seu país, o outrora poderoso Império de Manhumutapa, chafurdado pelo império colonial inglês que insultara tradição milenar, ao rebatizar a região com o nome do explorador John Cecil Rhodes. Para tanto, um dos primeiros passos foi tornar-se líder sindical entre os ferroviários. O vôo era longo. Assim, além das sobras de extremada gentileza da equipe de bordo para com o viajante ilustre, caiam-me gotas de um cálice cujo conteúdo eu jamais dele beberia, senão que pelo acaso daquela viagem. E por uma certa questão de respeito. Mr. Nkomo contou-me da derrota do domínio branco, quando um certo Ian Smith, primeiro ministro da Rodésia, que desafiara os ingleses e, também, aos africanos, foi lançado no baú dos trastes da História. E falou-me com tristeza de seu ex-companheiro de lutas, Robert Mugabe, ainda hoje presidente do Zimbábue.

            Naqueles dias de África, meu imaginário pululava de imagens de homens que tornaram independentes suas nações: Kwame Nkrumah, de Gana; Houphouet-Boigny, da Costa do Marfim; Jomo Kenyatta, do Quênia; Ahmed Sekou Toure, da Guiné Conakry; Amílcar Cabral, da Guiné Bissau e Cabo Verde e dos que ainda lutavam, como Samora Machel, de Moçambique; Agostinho Neto, de Angola e o prisioneiro Nelson Mandela, da África do Sul.

            Pois, transcendendo o imaginário, ali estava, a meu lado, loquaz, cheio de vida – um simpático velhão, um vovô que queria alguém que o ouvisse com respeito.

Eu ouvi o líder da independência do Zimbábue, com muita honra.

Ah! E deu-me um folheto igual ao que encima esta matéria, que perdi no tempo. Reencontrei-o na Internet.

 

 

 

 

Setembro de 2006.