O artigo a seguir, de Martin Luther King, na opinião de estudiosos de sua vida e obra, ao revelar sua estratégia de ação pós Prêmio Nobel[1] – enfrentar a máquina de guerra de seu país – teria sido a verdadeira razão de seu assassinato.

 

Escreveu:  Dr. Martin Luther King Jr[2].

 

O Prêmio Nobel da Paz é uma grande honra, mas  não bastante para que iniciemos um “período de satisfação” no movimento dos direitos civis.

Retornamos de Oslo não com nossas cabeças nas nuvens, nos parabenizando por notáveis dias do passado e tentados a declarar uma pausa em nossa luta. Voltamos com nossos pés ainda mais firmemente assentados no solo; convicções robustecidas e metas conduzidas por aspirações de grandiosos e brilhantes amanhãs.

Em aceitando o Prêmio Nobel da Paz de 1964, indaguei  por que tal honraria recaiu sobre um movimento que se mantém assediado mas  comprometido a uma luta sem trégua; a um movimento que é um crescente avançar com majestoso escárnio para com o risco e o perigo; a um movimento que não venceu a essência da paz e da humanidade que são a essência do grande legado do conde Alfred Nobel.

Sugeri, então, e mantenho como firme convicção, que o Prêmio fosse outorgado não apenas como reconhecimento às conquistas do passado, mas como galardão – a mais profunda recompensa – de que o modo não violento, esse método dos negros norte-americanos, é o caminho para a crucial questão política e moral de nossos tempos: a necessidade de o ser humano superar a opressão e a violência, sem se valer da violência e da opressão.

Em praticamente todas as entrevistas de imprensa desde meu retorno de Oslo surgem estas questões: E agora? Qual o rumo que seguirá o movimento pelos direitos civis?

Não posso falar por todo o movimento dos direitos civis. Muitos são os comandantes; sou apenas um deles, e a organização que presido, a Southern Christian Leadership Conference – SCLC (Conferência Sulista de Liderança Cristã), é, em essência, uma entidade sulista buscando soluções para problemas típicos do Sul.

Todavia, devemos ser realistas. Desde o instante em que foi anunciado que o Parlamento da Noruega me havia escolhido como vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1964, solicitações para meu envolvimento tanto em questões nacionais como internacionais começaram a  pipocar. Assim, embora eu vá continuar a dar prioridade para os problemas do Sul, compreendo que deverei, mais e mais, estender meu trabalho para além de suas fronteiras.

Em verdade, já comecei a assim agir. Na viagem para Oslo tive a oportunidade de discutir questões raciais com o Lorde Chanceler Britânico, bem como com membros do Parlamento inglês. Também participei da organização de um movimento para unir as pessoas de cor residentes em Londres e seu entorno. E inclui caribenhos, paquistaneses, indianos e africanos que, juntos, lutam contra injustiças raciais na Inglaterra.

Em casa, pressões se intensificam para que a SCLC abra sucursais em várias cidades do Norte. Chegaremos a uma decisão sobre este ponto após uma excursão, nesta primavera, do projeto Empregos e Circuito da Liberdade, a 10 cidades nortistas consideradas como relevantes. Entendemos que muitos dos problemas raciais no Norte existem por causa do Sul – como resultado de anos de pobreza que foram levados junto com os inúmeros sulistas que migraram para o Norte, desde a Segunda Guerra Mundial.

Assim, embora que a base operacional principal da SCLC  venha a ser mantida no Sul, onde podemos atacar com mais eficiência as raízes dos malefícios raciais, poderemos vir a nos envolver, numa extensão ainda maior, com os problemas do urbano Norte.

Noutro nível, devo emprestar especial atenção a três problemas que considero os maiores que desafiam a humanidade: injustiça racial em todo o planeta, pobreza e guerra.

Embora que cada um aparente estar separado e isolado, se interligam num único tecido: o destino da humanidade.

Que examinemos a injustiça racial ao redor do mundo. A luta para eliminar esse mal se constitui num dos maiores desafios destes tempos. A mais, o que está ocorrendo nos Estados Unidos quanto a isso é relativamente uma pequena parte da revolta universal à injustiça racial. Por todo o mundo, qual uma febre, os movimentos de libertação  se espalham como nunca na história. Multidões em toda parte mostram-se determinadas a por um fim na exploração de raças e terras. Eles despertam. Movimentam-se. E o negro norte-americano viu-se apanhado no Zeitgeist[3]. Também se movem, com seus irmãos negros da África; com seus irmãos marrons e amarelos da Ásia, América do Sul e Caribe.

“Não-violência”, é a palavra que caracteriza alma e corpo da batalha do negro norte-americano contra a injustiça racial. De maneira ampla, ela significa que aqueles engajados no movimento de direitos civis não se apóiam em armas e munições de guerra. Ao contrário, eles têm esmagado o mal por meio de não cooperar com leis e costumes que são a face institucional do regime de escravidão e discriminação. Muitos na luta têm sido brutalizados. Alguns morreram. Mas em tempo qualquer buscaram infligir brutalidade aos seus opressores. Buscam apenas libertar a sociedade americana e ter parte na autolibertação  de todos os povos americanos.

Deparo-me pensando, cada vez mais freqüentemente, no que considero como o segundo maior mal da humanidade: o mal da pobreza. É um mal que existe tanto em Indiana como na Índia; em Nova Orleães ou em Nova Delhi. Cerca de dois terços da população do mundo vão para a cama noite após noite com fome. Para muitos, suas camas são as calçadas e acostamento de estradas.

Não poderíamos acordar que o momento tenha chegado para uma total guerra contra a pobreza; não, apenas, para a “Grande Sociedade”, do presidente Johnson, mas para todo e qualquer recanto do mundo onde esse renitente mal existe? Pobreza, especialmente essa disseminada entre 35 milhões de pessoas nos Estados Unidos, tem por base não a falta de recursos, mas num trágico déficit de solidariedade. Fica a impressão de que eliminamos os pobres de nossas cogitações e os retiramos do foco de nossa sociedade. Fizemos com que os pobres se tornassem invisíveis e externamos nosso desagrado quando sua presença é notada. Todavia, assim como a não-violência mostrou o horror da injustiça racial, devemos encontrar meios de expor e curar a doença da pobreza – não apenas em seus sintomas, mas em suas causas essenciais.

O terceiro grande mal a desafiar a humanidade é algo com o que me considero profundamente interessado. É o mal da guerra. A China Vermelha recentemente juntou-se à comunidade nuclear, alertando claramente que as nações não estão reduzindo, senão que aumentando seus arsenais e destruição em massa. A predisposição da humanidade para empreender guerras é, ainda, uma certeza. Mas a sapiência fruto da experiência afirma que a guerra é algo obsoleto. Vida é o que vale a pena. Devemos, assim, encontrar uma alternativa para a guerra, pois que se o homem  desencadear a guerra hoje   deixará apenas cinzas ardentes de um inferno.

Em Oslo eu sugeri que a filosofia e estratégia da não-violência viesse a se tornar imediatamente objeto de estudo e séria experiência em todos os campos do conflito humano, inclusive nas relações entre as nações. Não era, creio, uma sugestão fora da realidade. A paz mundial através de meios não violentos não é nem um absurdo, tampouco o inalcançável. Todos os outros métodos falharam. Assim, devemos iniciar algo de novo. Não-violência é um bom ponto de partida. Aqueles dentre nós que acreditam nesse método podem ser as vozes da razão, sanidade e compreensão, em meio às vozes da violência, ódio e paixão. Podemos muito bem impor um ambiente de concórdia, a partir do qual um sistema de paz poderá ser construído.

Injustiça racial por todo o mundo. Pobreza. Guerra. Quando a humanidade resolver esses três problemas terá nivelado seu progresso moral ao seu desenvolvimento científico. E o que é mais importante: terá aprendido a prática arte do viver em harmonia.

O Prêmio Nobel deu-me uma ainda mais profunda fé de que a humanidade muito breve encontrará o momento, quando dará um novo rumo a seu tempo, se direcionando rapidamente para seu destino. 

 

 


UMA OPINIÃO AO TEMPO

 

“ Nos últimos dois anos, à medida em que me enderecei para  a revelação de meus silêncios e falar a partir das ardências de meu coração – como me pronunciei pela nossa radical saída do Vietnam – muitas pessoas me questionaram quanto à sapiência do caminho seguido. Do âmago de minhas preocupações esse desafio tem comumente assomado grande e ruidosamente: “Por que estás falando de guerra, Dr. King? Por que te somas às vozes do dissenso?” “Paz e direitos civis não se misturam”, dizem. “Não estás agredindo a causa de teu povo?, me indagam. E quando os ouço, embora compreenda a fonte de suas preocupações, me sinto todavia entristecido, posto que tais questões significam que os que indagam em verdade não me conhecem, desconhecem meu compromisso, minha vocação”.

 



[1] Prêmio Nobel da Paz de 1964.

[2] Tradução do texto: José Luiz Pereira da Costa, em 2006.

[3] - Expressão alemã que significa o espírito moral, intelectual e cultural de uma época. Usada por W. E. B. Du Bois, em “The Souls of Black Folk”